Entrevista ao presidente da Junta de Freguesia da Golpilheira: “Estou orgulhoso e sinto que valeu a pena”

Carlos Alberto Monteiro Santos, de 42 anos de idade, é presidente da Junta de Freguesia da Golpilheira desde 2005, função que terminará no próximo mês de Outubro, após 12 anos e 3 mandatos cumpridos. Na “hora da despedida”, o Jornal da Golpilheira foi saber o balanço que faz da sua presidência e as principais experiências que lhe proporcionou. Confessa-se “orgulhoso” do trabalho feito, destacando o contributo para o novo edifício da Junta e o pavilhão desportivo, e lamenta não ter conseguido um “parque verde” para a Freguesia. Embora prometa continuar atento à vida pública, deseja agora dedicar-se mais à profissão de técnico projectista e formador, que sempre desempenhou, e sobretudo à família.

Entrevista de Luís Miguel Ferraz

Como sentiu o apelo a um envolvimento na política autárquica?

O apelo surgiu de forma natural, considerando os largos anos de serviço na colectividade local, desde os 11 anos de idade, em diversas secções da mesma, como desporto, folclore, escola de música e, sobretudo, organização de eventos. Em 2001, sou convidado pelo presidente de câmara, António Lucas, a fazer parte das listas à Assembleia Municipal, certamente contando ele que poderia representar com notoriedade e visibilidade a população da freguesia naquele órgão.

 

Como foi essa primeira experiência de deputado municipal?

Naquele tempo, o essencial era não perder de vista o foco em representar a freguesia o melhor possível, pois é essa a matriz de um eleito local. Lembro-me de ter tido um papel central na resolução do problema ambiental da freguesia e do rio Lena, sempre pela positiva, para que as instituições ajudassem o proprietário da destilaria da Golpilheira a resolver o caso.

 

Depois, candidatou-se à Junta da Golpilheira. Como imaginava a tarefa?

Também foi um processo natural. Em 2005, a comunidade local ansiava que pudesse surgir um nome diferente a liderar a Junta. Os 16 anos que vinham de trás foram desgastando a imagem do meu antecessor. Considerando o trabalho desenvolvido na Assembleia Municipal, o presidente de Câmara e o Paulo Batista Santos desafiaram-me, ainda antes ter completado 30 anos, que me fosse preparando, pois teria deles todo o apoio para realizar os projectos que caberiam à Junta de Freguesia executar e que há longos anos a população esperava. Assim sendo, estava convicto de que tinha a capacidade e disponibilidade para facilmente superar a imagem que tinha sido deixada.

 

Que projectos tinha em mente?

Como disse, tendo apoio da Câmara Municipal, e numa freguesia como a nossa, que tem recursos escassos, cedo me apercebi do poderia ser realmente feito. Acima de tudo, tinha a consciência de que a reorganização da Freguesia era essencial, para que pudesse aspirar a outras realizações, tais como a construção do novo edifício da Junta e trazer um grande investimento para a freguesia na área do desporto, mas sobretudo reabilitar a imagem do presidente de Junta nas diversas instituições.

 

Ainda se lembra do que sentiu ao ganhar as primeiras eleições?

Claro que foi um momento de felicidade inicial, que certamente demorou alguns minutos e que se transformou rapidamente num momento de responsabilidade. Lembro-me de ter agradecido à minha esposa, que estava grávida da minha filha, toda a paciência que ela teve naquelas semanas anteriores, que foram de trabalho intenso.

 

Uma das primeiras decisões que tomou foi construir uma nova sede da Junta. Como foi esse processo?

Recordo-me de que fomos, desde 2006, consultando a população e ouvido opiniões diversas, para que a decisão fosse tomada com amplo apoio local. Optámos por construir um edifício novo, já que o anterior não apresentava condições de segurança, nem tinha registo histórico relevante. A primeira dificuldade que tivemos foi logo com a entrada dos projectos na Câmara, pois verificávamos que o espaço não estava registado convenientemente e com as áreas certas. Logo aqui, e para que o processo fosse claro, perdemos cerca de oito meses. Tínhamos a noção de que, sem a colaboração municipal, nada seria feito. Encontrámos uma forma legal de financiar o edifício e, em Junho de 2009, este estava já ao serviço da população.

 

Sendo um grande investimento, acha que comprometeu outros projectos?

Francamente, direi que não, já que o essencial do que nos era solicitado pelas pessoas ia sendo resolvido. Os golpilheirenses tinham a noção de que o importante naquele tempo era manter os espaços minimamente limpos e a freguesia continuar a ser um exemplo de boa gestão financeira, sem entrar em grandes promessas impraticáveis.

 

Durante os três mandatos, qual foi o maior desafio que enfrentou?

O maior constrangimento que tivemos e que será, certamente, o desafio para quem vier a liderar a Junta, é o constante apelo à boa-vontade da Câmara no sentido de dotar as finanças da Freguesia de meios próprios, que lhe permitam alguma autonomia na acção.

 

E a maior alegria que viveu?

Foram muitos os momentos felizes ao longo destes três mandatos, fiz-me amigo de muita gente que conhecia mal até então, tivemos pequenas realizações que resolveram grandes problemas a pessoas quase anónimas da freguesia. Mas não posso deixar de referir duas alegrias que foram, em simultâneo, muito importantes e estruturantes para o futuro da Freguesia e da nossa comunidade: a realização do edifício da Junta de Freguesia e a construção do pavilhão desportivo.

 

Há algum projecto que não tenha conseguido concretizar e que lhe deixe pena?

Tenho pena de não ter conseguido arranjar meios para lançar um verdadeiro “parque verde” para a Freguesia. É sabido que a área de floresta no nosso território é praticamente inexistente, por isso, a comunidade entendeu que só recorrendo a terrenos privados isso seria possível. Talvez o Município possa reactivar o projecto de ciclovia à beira do rio Lena e fazer avançar essa infra-estrutura.

 

Como foi a relação com as equipas de trabalho que liderou e com as várias assembleias de freguesia?

Quanto os executivos da Junta, foram excelentes equipas. Não posso deixar de realçar, no primeiro mandato, a pessoa do José Guerra da Silva, que com toda a sua experiência me ensinou como lidar com as diversas sensibilidades da freguesia, à Fátima Sousa, pela serenidade e organização, e ao José Santos Silva, que foi o braço forte da Freguesia durante estes três mandatos, pois é a ele que devemos esforço, trabalho e sacrifício pessoal a bem da sua terra. Aos três, um muito obrigado em nome pessoal.

Com a Assembleia de Freguesia, superiormente liderada pelo Joaquim Cruz, a relação foi sempre salutar e de colaboração extrema. Quer os membros eleitos pela minha lista, quer os eleitos pelos outros partidos, sempre se mostraram colaborativos, aprovando as nossas propostas, quase sempre por unanimidade, mostrando assim concordância com o rumo tomado e com as decisões do executivo de Junta.

 

E com as outras forças vivas da freguesia?

Vindo eu de uma intensa actividade associativa e de voluntariado, não poderia deixar de compreender as dificuldades daqueles que dão o seu tempo a custo zero em prol da comunidade. Tiveram sempre o nosso apoio e por várias vezes acabei a influenciar uma ou outra decisão a favor do Centro Recreativo ou da Comunidade Cristã, que são os dois pólos congregadores da união que se vive na Freguesia.

 

Em jeito de balanço, sente que valeu a pena esta missão?

Sem dúvida. Quando olho para trás, vejo uma Freguesia antes de 2006 e outra até 2017. Certamente, a esmagadora maioria dos golpilheirenses gostarão mais da sua freguesia hoje do que gostavam há 12 anos atrás. Tenho consciência de que não agradei a todos e não fiz tudo o que me propus fazer, mas tal como na nossa vida pessoal, tentamos sempre melhorar com os erros e não voltar a falhar. O que fizemos deixa-me orgulhoso e sinto que valeu a pena.

 

Pensa regressar no futuro a funções autárquicas ou de cariz público?

Como disse, estou orgulhoso do trabalho que fiz e ocupei o lugar de serviço público mais alto da terra onde habito e de que tanto gosto. Por isso, que objectivo poderia eu perseguir neste momento?

Devo à minha família muitas horas de sacrifício e de privações, que quero recuperar nos próximos tempos. Continuarei atento ao trabalho que se for fazendo e colaborarei com a comunidade local, como faço há 30 anos. Tenho a minha actividade profissional, que nunca deixei de exercer, mas vou andar por aí… nos cafés, nos eventos na rua, na escola, etc., não me vou esconder durante 11 ou 12 anos…

 

Que mensagem deixa aos golpilheirenses, na “hora da despedida”?

Emocionalmente, declaro aos meus conterrâneos que gostei de liderar a Freguesia desde 2006, mas vou recordar uma conversa que tive com um grupo de amigos e familiares em 2005. Diziam-me eles: “Vais para a Junta, só vais criar inimigos”. Hoje respondo-lhes que fiz apenas meia dúzia de adversários, mas em contrapartida 12 anos chegaram para fazer centenas de amigos e amigas de todas as idades. A todos, o meu muito obrigado!

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