Um ano depois…

Um ano depois… é hoje.

Muita coisa aconteceu num ano. Mesmo num ano em que parece nada ter acontecido. Talvez por estarmos mais fechados, escondidos sorrisos ou lágrimas por detrás de máscaras não necessariamente feitas de tecido, tantas vezes de egoísmos ou hipocrisias, nem sempre damos conta do mundo que vive e morre durante um ano. Notícias, números, estatísticas… sinais vazios para a nossa indiferença, até que seja à nossa porta que bata a sorte ou o infortúnio. Quantas famílias, quanta gente sentiu este ano pesado? Muitas, demais. E, ainda assim, felizmente, não todas, não a maioria. Por isso, apesar das incertezas da liberdade e dos confinamentos do sentimento, este será para muitos de nós o ano zero dos acontecimentos.

Tu eras um homem de acontecimentos. Vivias intensamente – às vezes, talvez, demais – aqueles em que estavas, sofrias por não conseguires – por vezes – estar. E contavas, fotografavas, comentavas, dizias até à exaustão todo o sumo dos que acompanhavas, sobretudo quando eram acontecimentos que marcavam os teus ideais de terra, de pertença, de comunidade, de colectividade, de tradição, de desporto, de religião, de amizade, de vida, de coração.

O teu coração parou, faz hoje um ano. Parte do coração deste Jornal parou, faz hoje um ano. E, no entanto, continua a bater por aqui, forte, em memórias, em restos de milhares de letras ou imagens que por aqui deixaste, em sonhos que vão continuando nos que alimentaste.

Gelou o meu coração, faz hoje um ano, incrédulo com essa última notícia que me deste já sem dizer nada. Com a mesma incredulidade que se mantém sempre que a recordo, ainda hoje, que faz um ano. E, no entanto, é desse gelo que brota, ainda agora, muito do calor que aqui tento acalentar, a cada letra, a cada imagem, sobretudo nas noites mais sombrias de cansaço ou de dúvida sobre se vale a pena avançar.

Onde estás, sabes que é de coração gelado e quente que escrevo estas linhas, um ano depois. Não é só memorial, que esse continuará eterno enquanto durar o tempo deste jornal. Não é sequer homenagem, que essa não cabe em palavras e por mais que se faça nunca estará feita. Talvez seja um cumprimento, um olá, um abraço daqui ao eterno que tempo nenhum poderá vencer. Talvez seja apenas mais uma das vezes, como tantas durante este ano, em que me assaltas a memória e me fazes recordar momentos, palavras e acontecimentos que vivemos e contámos por aqui.

Podia dizer que me fazes falta, tu sabes – onde estás –, mas não quero ceder à tentação desse egoísmo. De outro modo, continuas a ajudar, como podes, como sempre. Pode não ser a enviar textos doc-a, doc-b, e por aí fora, às vezes, até já não haver mais letras no abecedário. Pode não ser com cartões de memória, vários, cheios de gigas de imagens que recolhias avidamente. Um ano depois, pode ser apenas essa luz que continua de longe a inspirar-me que vale a pena lutar, mesmo quando o corpo não responde. Porque um dia poderá vir a luz, porque a esperança pode ser compensada com o sucesso, mesmo quando, inexplicavelmente, esbarramos com o fim precisamente quando tudo acaba de começar.

O que hoje te queria dizer, passado um ano, é o renovado obrigado que te tenho dito, tantas vezes. E também que, neste ano vazio e pesado, esse teu derradeiro acontecimento foi o meu acontecimento. Foste a notícia que rompeu números e estatísticas, real e incrédula com uma bala perdida sem sentido. Como se pudesse haver sentido, outro sentido além daquele que descobriste nos últimos dias da tua longa busca. Creio que O encontraste. Creio que – onde estás – poderás agora dizer até à exaustão tudo o que o coração apertado não te permita viver.

Creio – é o que te quero dizer, Manel. Hoje, um ano que faz.

Luís Miguel Ferraz


Em memória de Manuel Carreira Almeida Rito († 12.06.2020)
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