>O Infante D. Henrique, a Batalha e os Destinos de Portugal

>Alocução proferida no dia 14 de Novembro de 2010, no Auditório do Mosteiro da Batalha, integrada nas Celebrações dos 550 Anos da Morte do Infante D. Henrique: 1460-2010, organizadas pela Associação de Municípios Terras do Infante e Câmara Municipal da Batalha.

Por Saul António Gomes
Universidade de Coimbra

1 – O monumento em que nos encontramos, antigo mosteiro de frades dedicados à pregação da palavra evangélica mas também ao vigilante culto do silêncio que permite ouvir a voz do sagrado, dedicado ao título de Santa Maria da Vitória, é um dos lugares mais simbólicos da identidade pátria.

Rima esta palavra pátria, tão pequena nas letras com que se escreve, mas tão grande na memória que em nós acorda, com aquela outra que pronunciamos “vitória”, a vitória das armas dos leais portugueses que, no desfavor do número e em circunstâncias militares difíceis e muito desfavoráveis, ainda assim, animados de uma fé a Deus e à ideia da legitimidade da sua luta pela liberdade daqueles que eram o seu reino e o seu novo rei, na distante tarde de 14 de Agosto de 1385, triunfaram sobre os injustos invasores, consagrando a independência nacional.

Para comemorar tão “maravilhosa vitória”, palavras de D. João I, ordenou, aquele que foi o décimo rei de Portugal, que se edificasse neste sítio uma “casa de oraçom”. Um templo que, desejava o Rei da Boa Memória, fosse o maior que até então se levantara em toda a Hispania. Depois de Ceuta, em 1415, a Batalha viu acrescidas as suas responsabilidades já não apenas como “casa de Deus” mas também como panteão da nova dinastia.

Deste modo, o majestoso Mosteiro de Santa Maria da Vitória tornava-se arca de uma memória permanente em torno da ideia de Portugal e daquelas gerações de homens ilustres que conduziram os destinos pátrios ao longo desse tão rico século XV em que as portas do mundo novo se abriram, no mapa que as descobertas marítimas portuguesas construíram, definitivamente para toda a Humanidade. Comemora o triunfo português, a entronização de uma nova dinastia real, a vitória da fidelidade a Roma num tempo em que a Igreja do Ocidente se cindia entre a Cidade Eterna e Avinhão.

Este é, sobre todos, o templo maior da memória pátria. Foi essa a razão da sua edificação e tem sido essa, nestes últimos mais de seis centos de anos, a lógica da sua preservação, da sua exaltação e valorização utópica, política e cultural, princípios, estes, reiterados em todas as épocas, por todos os governos, por todos os “Estados”, que se sucederam em Portugal.

Não queria, de modo algum, deixar aqui a visão de que a ideia de pátria que este monumento comemora é uma representação estática e imóvel. Bem sabemos que as pátrias se renovam na mudança das gerações a que são berço, enriquecem-se no encontro de culturas, na partilha multicultural dos povos. E este monumento testemunha muito bem esse encontro de culturas que, desde os tempos medievais e sobretudo nessa centúria de ouro dos Descobrimentos marítimos. Nele trabalharam homens de diferentes proveniências e nações. A sua linguagem estética demonstra a europeidade portuguesa nos finais da Idade Média e nos alvores de Quinhentos. A sua história mostra-nos a evolução dos tempos, das ideias, dos sentimentos e das expressões religiosas.

Mas reconhecermos que essa mudança permanente do tempo e dos homens é o motor da própria História, não anula o necessário assentimento de que, para lá de todas as transformações, mutações e mudanças, permanece, na História, em geral, como neste monumento, em particular, o vínculo durável do sentido de Portugal ou da pátria portuguesa.

Tão grande como este monumento é, numa escala humana, o legado histórico do Infante D. Henrique. Não poderá nenhum historiador reticenciar, por mais que a sua biografia seja escrita e reescrita, que, aquele que foi consagrado como Infante de Sagres, influiu de modo determinante nos destinos históricos de Portugal, como também nos de toda a Humanidade.

A sua determinação e a sua capacidade de acção e de realização de projectos e vontades, o seu desejo de descoberta, de procurar toda a certeza das realidades geográficas e humanas mal conhecidas no seu tempo, estão na base do que é o Portugal moderno e contemporâneo. D. Henrique, criado por um destino português afirmado nesta Batalha, seria fautor de um novo destino para Portugal.

Não podem, efectivamente, as discussões historiográficas, mais ou menos favoráveis ao papel do Infante na História, ou sequer as “utilizações políticas” que dele se fizeram, apagar as pegadas com que D. Henrique marcou os destinos de Portugal.

No início do século XVI, Duarte Pacheco Pereira escreveu, na sua obra Esmeraldo de situ orbis, avaliando o legado henriquino, as seguintes palavras:

“Tantos sam os beneficios que o virtuoso Infante Dom Anrique teem feytos nestes Reynos, que os Rex e povoos d’elles lhe sam em muita obriguaçam, porque na terra que elle descobrio, grande parte de jente de Portugual ganha de comer, e os Rex d’este comercio grandes proveytos ham.”2

Não poderia haver síntese mais adequada, neste momento, do que esta que acabámos de ler. O legado henriquino resumia-se a um destino português, pois que, pelos Descobrimentos, “grande parte da jente de Portugal ganha de comer”. E os Descobrimentos não só mataram a fome a muitos portugueses, mas também trouxeram riqueza aos reis de Portugal, tornando-os grandes e respeitados em todo o orbe e, por eles, Portugal no mundo.

2 – Em data indeterminada, mas próxima da morte do ilustre Infante D. Henrique, cuja memória aqui celebramos, um frade dominicano, de seu nome Fr. Afonso de Alfama, recolhido em cela do Convento de S. Domingos de Lisboa, anotou, no Livro de Aniversários, desse antigo claustro, a seguinte informação:

“Em a era de Nosso Senhor Jehsu Christo de iiijc lx anos xiij dias andados do mes de Novembro no Algarve morreo ho ilustrissimo Senhor Ifante Dom Henrrique filho do dicto senhor rey Dom Joham e da raynha Dona Philipa. E morreo em honrra de velhice de hydade de Lx e vij annos, na sua villa do Ifante, aas dez horras da noute. Boo morrer de christãao em tal modo que todos aqueles que presentes foram teem esperança e fe de seer em gloria e salvaçom.

E na era de iiijc lxj, vº dias andados do mes de Julho foy traladado ho seu corpo no seu muymento na capella delle … do dicto Mosteiro da Batalha e visto por nosso senhor el Rey Dom Afomso seu sobrinho … fazendo-lhe muito solempnes exequias etc.”3

Não se alonga mais o apontamento deste informado frade dominicano de Lisboa. Mas mau grado a brevidade da notícia, ainda que notícia primeira porque redigida em momento muito próximo dos factos que narra, há que sublinhar que nela ressalta já a visão elogiosa e comemorativa da sociedade portuguesa em torno do Infante de Sagres. “Ilustrissimo Senhor” lhe chama o quase desconhecido cronista pregador, sublinhando que o passamento do filho dos reis fundadores da nova dinastia acontecera nesse ainda distante reino do Algarve, para, de seguida, sublinhar que a boa morte do Infante se revestira de indícios de virtudes cristãs prenunciadoras de santidade: um bom morrer, de cristão, de tal modo que todos quanto lhe assistiram ao passamento tinham “esperança e fé de ele ser em glória e salvação”.

A sociedade portuguesa no entorno de 1460 mostrava-se reconhecida para com o Infante que morrera no Algarve. E não deixará de comemorar, com magnificência lusitana, a trasladação dos restos mortais do Infante para este Mosteiro da Batalha, onde foi definitivamente tumulado a 5 de Julho de 1461, no meio de exéquias solenes presididas pelo monarca reinante, D. Afonso V, sobrinho do Infante.

Anos mais tarde, o cronista Rui de Pina, enaltecendo este “infante Dom Anrryque” que, palavras suas, “foy em tudo princepe tam perfeito”, e acrescentado interpretação histórica à memória da morte do Infante, escreveu, sobre o momento da sua morte, o seguinte:

“Faleceo em Sagres ho jfante Dom Anrrique, com synaaes e comprimento de fiell christãao, em hidade de sesenta e sete annos, cujo corpo foy logo soterrado na igreja da villa de Laagos. E hy, no anno que vinha de mjl e quatrocentos e sesenta e huum, foram seus ossos levados ao moesteiro da Batalha per o jfante dom Fernando, que tinha adoptado por filho, que foy por elles e os trouxe, com grande honrra e mujta cerimonia, ao dicto moesteiro. Onde elrrey, acompanhado de toda a nobre gente de Portugal e mujtos prellados, saio a os rreceber, com sollempne procissam, e lhe fezeram honradas exequjas.”4

3 – A história da vida do Infante D. Henrique encontra-se muito interligada com a memória plural que se respira neste templo pátrio. Na verdade, o Infante de Lagos, admirado e elogiado pela Cristandade do seu tempo, foi uma das personalidades da Dinastia de Avis que mais se interessou por este Mosteiro. Se para seu pai, D. João I, a Batalha comemorava a vitória da Batalha Real de Aljubarrota, para D. Henrique este lugar assumiria, como passarei a expor, uma vocação ainda mais sensível no campo da memória de si e dos seus familiares.

O Infante D. Henrique foi, efectivamente, dentre a “Ínclita Geração, Altos Infantes”, como a caracterizou com feliz inspiração Luís de Camões5, depois dos reis de Portugal, um dos promotores que mais se interessou pela edificação deste Mosteiro e panteão dinástico.

Não há dúvida alguma acerca do facto de o Infante ter visitado por várias vezes, ao longo da sua vida, este Mosteiro. Esteve aqui nas exéquias solenes por sua mãe, D. Filipa de Lencastre, em 1416, como regressaria, ainda, para acompanhar a deposição junto do altar-mor do féretro de seu pai, em 1433 e, um Agosto de 1434, a trasladação de ambos os progenitores para a Capela do Fundador. Acompanharia pessoalmente, também, a deposição das primeiras relíquias de seu irmão, o Infante D. Fernando, trazidas de Marrocos, em 1458, no mausoléu fúnebre deste.

O interesse do Infante D. Henrique pelo Mosteiro da Batalha, enquanto lugar de memória dinástica e pátria, e, nisso, de distinção e honra para os que nele se tumulavam, é atestado, de forma extremamente singular, em carta régia de D. Duarte, promulgada a 24 de Agosto de 1436, em Óbidos, na qual o monarca Eloquente concedia, a seu irmão, autorização para que ele:

“Posa mandar lançar na capella do noso Moesteiro da Vitoria que esta junto com a samchristia aqueles seus criados que lhe a ell prover porque a nos praz que seja pera jazygoo delles.”6

Esta importante carta atesta a elevada importância simbólica que o Infante dava a este Mosteiro. Como a concedia, ainda, ao celebrado Convento de Tomar, no qual fez levantar novo claustro e desenvolveu obra artística de dignificação desse mesmo cenóbio, sede da Ordem que governava, no qual se tumulavam os religiosos cavaleiros que serviam debaixo do pendão com a celebrada cruz de Cristo.

Tenhamos presente, todavia, que, em 1436, D. Henrique se empenhava fortemente na preparação da armada militar com que pretendia conquistar Tânger. É possível que o privilégio de poder vir a sepultar aqueles que o servissem, nessa nova conquista marroquina que se avizinhava, em jazigos da Capela de Santa Bárbara, constituísse um factor psicológico para alguns desses seus criados e servidores, sendo, como era, um sinal de evidente prestígio e honra sociais.

Tenhamos presente, todavia, que o Mosteiro acolhia, por privilégio real, capelas funerárias de servidores da Casa Real. É assim que o vedor-mor da casa da rainha D. Filipa de Lencastre, D. Fr. Lopo de Sousa, mestre da Ordem de Cristo até 1418, recebeu a capela de S. Miguel ou dos Mártires, no absídiolo sul da cabeceira da igreja. Também nas capelas de Nossa Senhora do Rosário e de Nossa Senhora da Piedade foram enterrados servidores da rainha D. Isabel, mulher de D. Afonso V, e de D. João II, respectivamente. O próprio Infante D. Pedro, duque de Coimbra, conseguiu que o vedor da sua casa, Diogo Gonçalves de Travassos, parente de Gonçalo Velho Cabral, um dos descobridores dos Açores, recebesse uma nobre sepultura no estremo poente desta igreja dominicana, bem ao lado da capela do Fundador.

Não era, como se sabe, inédito, o facto de os Infantes procurarem galardoar os seus mais fiéis ou directos servidores com a honra de poderem receber sepultura junto ou perto das dos seus senhores. A Casa de Avis, como bem reflectiu o Infante D. Pedro, no seu Tratado da Virtuosa Benfeitoria, premiava com benefícios relevantes o mérito dos seus súbditos e sujeitos, vivificando uma cadeia de lealdades e de repartição de responsabilidades, de sentido de comando e de disciplina, que, em boa parte, ajuda a explicar a capacidade de acção e de união que marcou os portugueses que embarcaram nas caravelas dos Descobrimentos.

A súbita morte de seu irmão, el-rei D. Duarte, na vila de Tomar, em 1438, não pode ter deixado de perturbar fortemente o Infante das Descobertas. Nota-se, desde então, uma preocupação mais acentuada, por parte dele, em relação ao espaço que viria a ser o seu túmulo e às celebrações religiosas que deveriam ser asseguradas pelos frades dominicanos por sua alma.

Certo é que, já no testamento de seu pai, lavrado em Sintra, a 2 de Outubro de 1426, ficava expressa a vontade do rei da Boa Memória de que, neste cenóbio e capela ou panteão que aqui fazia erguer, citamos: “pellos jazyguos das paredes da capela todas em quadra, asy como sam feytas, se possam lamçar filhos e netos de rreix e outros nom”7.

D. Henrique sempre gozou de uma especial proximidade com seu pai. Não estranha que, reflectindo no inevitável fim da sua vida, também, depois de morto, desejasse ficar junto dos seus progenitores. A primeira manifestação documentada desse desiderato chega-nos em carta de 1 de Junho de 1439, pela qual os regentes do Reino, a rainha viúva D. Leonor e o Infante D. Pedro, concedem ao Infante e Duque de Viseu e senhor da Covilhã, licença:

“Que elle possa aver huum altar e huum jazigoo pera sseu corpo na capeella delrrey meu avoo, cuja alma Deus ajam que ho no moesteyro da Vitoria, junto com ho outro do jfante dom Pedro, duque de Cojnbra e ssenhor de Montemoor, meu muyto amado e prezado tyo, a saber, ho altar junto com ho outro altar sseu he jazigoo per esta guissa.”8

Em 1444, o regente D. Pedro reconhecia a seu irmão o estabelecimento que este promovera de uma feira franca em Viseu, autorizando-o a apropriar, à capela que ele tinha no Mosteiro da Batalha, o rendimento dos alugueres das barracas aos feirantes9. A 8 de Março de 1449, nas vésperas da fatídica batalha de Alfarrobeira, onde viria a morrer o ex-regente do reino, D. Afonso V renovou esta concessão, nos mesmos e exactos termos, a seu tio10.

Lembremos, por fim, que, por carta régia de 14 de Junho de 1474, foi acrescentada ao sustento da capela do Infante D. Henrique, neste Mosteiro, a tença de quatro mil reais para um anal de missas, os quais seriam pagos na Casa da Guiné11.

4 – Junto de seu pai, como referimos, quis o Infante dos Descobrimentos marítimos portugueses receber sepultura, como declarou reiteradamente no seu segundo e último testamento, por ele subscrito a 28 de Outubro de 1460:

“Item mando que ho meu corpo seja lançado no muimento que estaa pera mym onde jaz elrrej meu ssenhor e padre, no mosteiro de Sancta Maria da Ujtoria. E, se morrer fora, que seja leuado chãamente e assy seja soterrado e ssem doo, que mando que por mym nom façam; mas, chãamente e honestamente, seja encomendado a Deus com oras e mjssas acustumadas e oferta e dalhas que o meu testamenteiro ouuer por bem, o que faram conpridamente paguar, desencarreguando mjnha conçiençia.”12

Neste Mosteiro, em que o Navegador “a Deus prazendo, entendia de jazer”13 foi, pois, solenemente sepultado.

Acautelara previamente o Infante que queria que aqui se cantassem para sempre “tres capellas”, cuja liturgia determinara minuciosamente em cartas que deixava à guarda do seu testamenteiro. Para custear estas capelanias de missas e ofícios por sua alma, o Infante contratara-se, havia anos, com os padres conventuais deste Mosteiro, determinando que as celebrações em causa seriam pagas, anualmente, no montante de 16 marcos de prata, pagos, generosamente, reconheçamos, em prata pelos rendimentos das suas terras de Tarouca e de Valdigem14.

Nos três anos seguintes à sua morte, todos os encargos e dívidas que deixava, bem assim as despesas com as celebrações por “descarreguamento de minha conciençia” e com sua sepultura, deveriam ser pagos dos seus bens, a saber, o assentamento que lhe estava consignado na fazenda régia, as saboarias do Reino, as Ilhas da Madeira e Porto Santo e a Deserta, a Guiné com suas ilhas e toda a sua renda, e o quinto das enxavegas e das pescas de atuns e corvinas e Lagos e Alvor15.

É bem possível que uma parte dos códices litúrgicos da capela palatina do Infante tenham vindo enriquecer, depois da sua morte, o espólio da sua capela funerária. A 17 de Novembro de 1461, regista-se a entrega, por um executor testamentário de D. Henrique, a Fr. João Martins, provedor das obras do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, de “huma estante de ferro pera a capeella” do Infante16.

5 – Em Santa Maria da Vitória se cultuou, desde então, a memória deste Infante.

Uma memória diferenciada da dos irmãos. Basta verificar que o seu túmulo tem uma estátua jazente em que o Infante é apresentado na solenidade dos trajes principescos e de fundador da casa ducal de Viseu. As fontes históricas coevas do Infante sugerem que lhe foi devotada a aura de santidade.

Narra Diogo Gomes de Sintra, seu criado e panegirista, como Zurara, que, por mandado do rei D. Afonso V, em Julho de 1461, se dirigiu a Lagos, citamos, “junto do corpo do Infante a dar o que era necessário aos sacerdotes que se entregavam a continuas vigílias no ofício divino.”

Refere Diogo Gomes que o monarca lhe mandara:

“Que visse com cuidado se o corpo do Infante estava decomposto, porque queria trasladar os seus ossos para o mosteiro que se chama Santa Maria da Batalha, obra muito bela que o rei Dom João, seu pai, edificara com os Frades da Ordem dos Pregadores.

Eu, pela minha parte, chegando junto ao cadáver, descobri-o e encontrei-o seco e íntegro, com excepção da ponta do nariz. Achei-o revestido de um cilício áspero de cerdas de cavalo. Bem canta a Igreja: “Não consentirás que o teu santo veja a corrupção”.

Este senhor Infante permaneceu virgem até à morte e em sua vida praticou muitas boas obras que seria muito longo enumerar.

Então o rei mandou que o seu irmão, o Infante Dom Fernando, Duque de Beja, com os bispos e os condes fossem buscar o corpo até ao mosteiro da Batalha, acabado de referir, onde o rei o esperava. Foi deposto o corpo do Infante numa grande e belíssima capela que fez o pai dele, o rei Dom João; aí jaz esse mesmo rei e a sua esposa Dona Filipa, mão do Infante, e os seus cinco irmãos, todos eles de memória digna de louvor para sempre. Descansem na paz dos santos; amen.”17

Um corpo incorrupto que ainda hoje podemos entrever admirando a sua estátua jacente, deposta sobre a pedra do seu túmulo, manifesto definitivo da sua imagem de homem que o seu principal biógrafo e panegirista, Gomes Eanes de Zurara, referiu ter tido:

“A estatura do corpo em boa grandeza e foe homem de carnadura grossa e de largos e fortes membros. A cabelladura avya algum tanto alevantada. A coor de natureza branca, mais polla continuaçom do trabalho, por tempo, tornou doutra forma. Sua presença, do primeyro esguardo, aos nom husados era temeroso, arrebatado em sanha, empero poucas vezes, com a qual avya muy esquivo sembrante.”

O Infante revelava muito bem a sua identidade genética na sua fisionomia, tão discutida nos últimos anos, não escondendo o sangue inglês, que herdara por linha materna, aparentando claras parecenças com seu pai D. João I. É esse rosto que se gravou na estátua do seu túmulo e que, neste momento, pelo cinzel de novas gerações de canteiros batalhenses se volta a reproduzir em busto público, para mais larga admiração de todos, em praça contígua a este monumento.

Neste Mosteiro, pois, em que se ilumina o sentimento da alma pátria, repousam os restos mortais daquele cuja memória hoje, uma vez mais e num gesto repetido pelos séculos, celebramos. O Infante que impulsionou e sonhou os Descobrimentos, aquele que, na velha Europa, usando palavras do cronista Rui de Pina, “mandou primeiramente navegar e descobrir pello mar oceano.” Dessa verdadeira gesta e manifesto civilizacional recebeu Portugal, recorrendo a palavras do mencionado memorialista dos príncipes de Avis, “muyto bem e proveito”.

6 – Não cumpre, aqui e agora, estabelecer uma outra biografia deste príncipe e grande de Portugal. O momento é de celebração e traduz a importância que, entre nós portugueses dos alvores de uma nova centúria e de um novo milénio, se reconhece ao legado histórico de uma vida e de uma obra de todo invulgares nos destinos de Portugal e da Humanidade. O historiador deve também ser cidadão e partilhar com os seus contemporâneos o preito de homenagem e de memória que agora se tributa.

Se procurarmos uma lição de síntese, no que nos chegou de mais ideal na memória do Infante de Sagres, encontrá-la-emos na sua divisa heráldica. Por empresa, o Infante escolheu a azinheira carregada de glandes, símbolo da força e da sabedoria, símbolo de uma firmeza e de uma tenacidade bem portuguesas. Por moto, D. Henrique elegeu a expressão “Talent de bien faire.” Uma divisa feliz para um príncipe sem coroa desta grandeza.

O Infante teve, de facto, a capacidade e a inclinação para a realização do bem, de um bem-fazer que se traduzia e associava, naquele seu tempo tão distante de nós, na ideia de “bem comum”, de comunidade. “Bien faire” significava, sobremodo, fazer o “bem comum”. Este foi um ideal político muito presente nas primeiras gerações da Dinastia de Avis, esse “talant de bien faire”, de lealdade a um Portugal renovado, de serviço à causa pública.

Mau grado todas as leituras e todos os debates que se teçam em torno desta egrégia figura da história de Portugal e do Mundo, mais críticos ou mais elogiosos, não poderemos nunca deixar de lhe atribuir a importância ímpar que ele assumiu, no contexto e nas circunstâncias do seu tempo e do seu espaço civilizacional, nos destinos históricos daquele Portugal das Descobertas que “matavam a fome a muita gente”.

Por mais que se reescreva a sua biografia, e hoje, tenhamos noção disso, este acto de comemoração reitera, também ele e de vários modos, a continuidade de uma reescrita cívica dessa vida de um “filho ditoso” de Portugal, encontraremos sempre na margem cimeira, de qualquer texto que se lhe dedique, o reconhecimento do seu legado maior. O reconhecimento de um grande homem de Estado, do construtor de uma obra que se inscreve nos trilhos de todos aqueles homens da História Universal dotados desse insondável dom e incrível mistério do “talento de bem-fazer”.

Desse escol de grandes homens faz parte o Infante D. Henrique. Na sua vida abriram-se os seus destinos de um Portugal moderno. Um Portugal congregado em torno de um projecto de renovação, de grandeza, de expansão dos horizontes “por mares nunca de antes navegados”, assim se construindo a maravilhosa epopeia pátria na sua interminável viagem pelo tempo. Desse mesmo tempo que se suspende quando entramos, pequenos, neste magnífico templo gótico em que se contemplam os mistérios do mundo português de Quatrocentos.

TÁBUA BIBLIOGRÁFICA

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Notas
2 Livro I, Capº 33.

3 Citado por S. A. Gomes – O Mosteiro de Santa Maria da Vitória no Século XV. Coimbra: Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1990, p. 355, nota 4.

4 Rui de Pina, Crónica de el-Rei D. Afonso V, Capº 144; MH, Vol. XIV, Doc. 19, p. 84.

5 Os Lusíadas, IV, 50.

6 Fontes Documentais e Artísticas… I, Doc. 78, p. 197.

7 MH, Vol. III, Doc. 70.

8 MH, VI, Doc. 133.

9 MH, Vol. VIII, Doc. 84.

10 MH, Vol. X, Doc. 15.

11 S. A. Gomes – O Mosteiro de Santa Maria da Vitória…, p. 355.

12 MH, Vol. XIV, Doc. 11, p. 27.

13 MH, XIV, Doc. 11, p. 27.

14 MH, Vol. XIV, Docs. 7, 9, 11 e 19.

15 MH, Vol. XIV, Doc. 11, pp. 27-29.

16 MH, Vol. XIV, Doc. 127, p. 299

17 Diogo Gomes de Sintra, Descobrimento primeiro da Guiné. Edição crítica de Aires A. Nascimento. Introdução de Henrique Pinto Rema. Lisboa: Colibri, 2002, pp. 67-69.

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