Uma campanha de obras no Mosteiro da Batalha em 1750-1751

Uma campanha de obras no Mosteiro da Batalha em 1750-1751

(Especial Leituras de Férias)

Por Saul António Gomes

Conhece-se de uma forma bastante razoável a evolução das obras de construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, da Batalha. Iniciadas as fundações por volta de 1386-1387, o complexo monástico mostrava os primeiros sinais de edificação consolidada no ano de 1388, momento que o rei D. João I, por aconselhamento de Fr. Lourenço Lampreia e do Dr. João das Regras, o doou à Ordem de S. Domingos. Como os padres dominicanos, naquele tempo, não se mostravam particularmente devotos do mistério da Imaculada Conceição, o monarca hesitou algum tempo em formular-lhes a doação. Bons e convincentes argumentos manifestou, seguramente, o hábil Dr. João das Regras, para conseguir do rei tão grandes mercê e favor aos irmãos seguidores do hábito de Domingos de Gusmão.

O Mosteiro cresceu com a consolidação da nova dinastia. Depois de 1415 tornou-se panteão régio. Acrescentaram-se novas construções ao projecto inicial. Foi o caso da Capela do Fundador, em construção em 1426, das chamadas Capelas Imperfeitas, projectadas por Mestre Huguet, ao serviço do rei D. Duarte, do conhecido claustro de D. Afonso V, da conclusão do difícil abobadamento da sala do capítulo e de algumas outras obras e dependências com funções domésticas e culturais. Por 1509, o Mestre Mateus Fernandes I concluía a reforma do magnífico portal das Capelas Imperfeitas e avançava-se no preenchimento das bandeiras das arcadas do claustro real ou de D. João I.

Com D. João III, as obras na estrutura mais monumental e religiosa do monumento descontinuaram-se. Mas, em contrapartida, deu-se azo ao levantamento de novos corpos arquitectónicos mais funcionais para a vida da comunidade religiosa. Ampliaram-se a hospedaria e as alas dos dormitórios dos frades. O estudo desse processo de obras de acrescentamento do cenóbio mereceu competente aprofundamento, recentemente, ao Dr. Pedro Redol (Batalha. Viagem a um Mosteiro desaparecido com James Murphy e William Beckford, Cepae e Folheto, Batalha, 2011). Levavam-se a cabo, ainda, obras de vulto no edifício monástico nos finais do Século XVI, como, de novo, por 1690, conforme pudemos revelar em artigos publicados nas páginas deste jornal.

Obras quase constantes, diremos; umas de renovação ou de reparação, outras de remodelação e outras, finalmente, de ampliação do complexo conventual dominicano. Sabemos, como se pode comprovar pelos documentos que agora editamos, que se levavam a cabo empreitadas de obras neste instituto pelos anos de 1750 e 1751. Foi ainda o rei D. João V que, por intermédio do seu ministro, o Marquês de Abrantes, e pouco tempo antes de morrer (o monarca faleceu, recorde-se, em 31 de Julho de 1750), patrocinou uma campanha de “reedificação” dentro do Mosteiro.

Não dispomos de muitos elementos para identificar que obras foram essas. Sabemos, todavia e pelas fontes que aqui deixamos publicadas, que implicaram uma intensa utilização de madeiras. Madeiras extraídas dos Pinhais de Leiria, por benevolência real, e no admirado Engenho de Serração, montado por engenheiros holandeses naquele lugar, devidamente aparadas. Pelas relações que nos chegam dessa matéria-prima, podemos deduzir que a madeira de pinho se destinava a coberturas, pavimentos e forros de algumas instalações conventuais. Numa campanha de obras que se abria em 1750 e continuava no ano seguinte. Obras, portanto, morosas quanto ao tempo de execução e naturalmente dispendiosas do ponto de vista financeiro.

Quais fossem elas, e por que motivos se levavam a cabo, todavia, não o podemos afirmar, mas localizar-se-iam, de seguro, nas áreas habitacionais ou de serviço da comunidade religiosa. Os documentos falam em “reedificação”. Por arruinamento de alguma construção? Por calamidade natural ou algum incêndio que tenha danificado algum sector do monumento? Só uma investigação mais aprofundada nos permitirá responder a estas dúvidas.

Documentos

Doc. 1

1750 JUNHO, 26, Lisboa — O Marquês de Abrantes, por determinação régia, manda ao Guarda-Mor dos Pinhais de Leiria que entregue aos Religiosos do Convento da Batalha, para reedificação do mesmo, determinada quantidade de madeira.

[A e A’ (fl. 7)] Direcção Geral de Arquivos – Torre do Tombo — Mosteiro da Batalha, 2º Compartimento, E. 18, P. 7, Mº 5 (documentos avulsos não numerados).

Nº 148º [‘] Nº 150º

Rubricado: (Ass. Saraiva)

O Marques de Abrantes do Conselho de El Rey meu Senhor, gentil homem de sua Camara e vedor da sua Real Fazenda etcª. Mando a vos Guarda mor dos Pinhais de Leyria façaes entregar aos Religiozos do Convento de Nossa Senhora da Victoria da vila da Batalha as madeiras contheudas na relação incluza e assignada pello official mayor da Secretaria de Estado João de Leira, de que Sua Magestade lhe fez esmolla para reedificação do mesmo Convento, por avizo do Secretario de Estado dos Negocios do Reino Pedro da Mota e Silva, o que comprireis e fareis cumprir promptamente. Theotonio Ferreira dos Santos a fez, em Lisboa, a vinte e seis de Junho de mil setecentos e sincoenta annos.

(Ass.)

Joze Felis Rebello o fez escrever.

Marques de Abrantes. //

[Fl. 1v]

Por avizo do Secretario de Estado dos Negocios do Reino Pedro da Mota e Silva de 29 de Mayo de 1750.

[Fl. 7]

[A’]

Cumpra-se e registeçe na forma costumada conforme Sua Magestade ordena.

Quinta do Senhor dos Milagres, em 18 de 7bro de 1750

(Ass.)

Leyra.

[Fl. 7v]

Por avizo do Secretario de Estado dos Negocios do Reino, Pedro de Motta e Silva de 29 de Mayo de 1750.

Doc. 2

1750 MAIO, 27, [Lisboa] — Relação da madeira a entregar pela administração dos Pinhais de Leiria ao Mosteiro da Batalha para as obras que nele decorriam.

Direcção Geral de Arquivos – Torre do Tombo — Mosteiro da Batalha, 2º Compartimento, E. 18, P. 7, Mº 5 (documentos avulsos não numerados).

Nº 149º [A’- Nº 151º, fl. 9]

Rubricados: (Ass.) Saraiva.

Relaçam da madeira que Sua Magestade faz esmolla ao Convento de Nossa Senhora da Victoria da vila da Batalha para empregar nos concertos do mesmo Convento que se entregará a ordem do Padre Prior delle no Engenho da Serra do mesmo Senhor.

07 vigas de 35 palmos de comprimento.

24 ditas de 18 palmos de comprimento.

18 barrotes de 30 palmos de comprimento.

68 ditos de 25 palmos de comprimento.

12 ditos de 20 palmos de comprimento.

516 ditos de 15 palmos de comprimento.

10 frexaes de 15 palmos de comprimento.

34 duzias de taboado de moldura ordinária.

4 ½ do dito de 20 palmos de comprimento.

264 duzias de taboado de solho.

204 duzias de taboado de forro.

210 duzias de ripas ordinárias.

20 duzias de ripas de meio palmo de largo e grossura de moldura.

4 planchões de 24 palmos de comprimento e 2 palmos de largura.

9 duzias de couçoeiras ordinárias.

2 duzias ditas de 21 e 22 palmos de comprimento.

4 duzias e meia de 20 e de 18 palmos de comprimento.

5 duzias ditas de 15 e de 14 palmos de comprimento.

3 duzias ditas de 12 palmos de comprimento.

1 duzia e duas ditas de 18 palmos de comprimento e 2 palmos de grosso.

2 duzias ditas de 12 palmos de comprimento e meio palmo de grosso.

Paço 27 de Mayo de 1750.

[A’] (Ass.) João de Leyra.

Doc. 3

1751 ABRIL, 26, Lisboa — O Marquês de Abrantes, em nome de el-rei, manda ao Guarda-Mor dos Pinhais de Leiria que entregue ao Convento do Mosteiro da Batalha a madeira que lhe fosse necessária para obras de reedifição que decorriam no mesmo.

Direcção Geral de Arquivos – Torre do Tombo — Mosteiro da Batalha, 2º Compartimento, E. 18, P. 7, Mº 5 (documentos avulsos não numerados).

Nº 147º

Rubricado: (Ass.) Saraiva.

O Marques de Abrantes do Conselho de El Rey meu Senhor, gentil homem de sua Camara e vedor da sua Real Fazenda etcª. Mando a vos Guarda mor dos Pinhaes de Leyria, façais complectar aos Religiosos do Convento de Nossa Senhora da Victoria da villa da Batalha a mercê que consta do mandado incluzo da madeira contheuda na relação junta assignada pello official mayor que foy da Secretaria de Estado, João de Leyra, de que Sua Magestade lhes fez mercê para reedificação do seu Convento, com declaração porem que esta madeira será serrada dentro no Engenho da Serraria, a tempo que se não impida o lavor da madeira para o real serviço, e não em outra alguma serraria, sendo toda a despeza de lavor e condução á custa das partes, não se lavrando mais madeira que a que faltar para preencher o numero da sobreditta relação junta, por Sua Magestade assim o ordenar por avizo do Secretario de Estado dos Negocios da Marinha Diogo de Mendonça Corte Real, de doze de Março passado. O qual cumprireis promptamente mandando fazer toda a arrecadação necessária. Manoel de Mattos Felgueiras do Lago a fez, em Lisboa, a vinte e seis de Abril de mil e settecentos sincoenta e hum annos.

(Ass.)

Sebastiam Xavier da Gama Lobo a fez escrever.

Marques de Abrantes. //

[Fl. 1vº]

Por avizo do Secretario de Estado de 12 de Março e despacho do Concelho de 24 de Abril de 1751.

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