187 – Editorial

187 – Editorial

As árvores não morreram de pé

A frase “de pé, de pé, como as árvores” foi celebrizada pela fabulosa actriz Palmira Bastos em 1966, na peça “As Árvores Morrem de Pé”, gravada ao vivo e transmitida pela televisão do tempo do preto-e-branco, naquela que terá sido uma das suas melhores representações de sempre, quando contava já 90 anos de idade.
Contrastando com o vigor das palavras, acompanhadas pelo bater sólido da bengala no palco, a figura frágil da actriz fazia levantar plateias em aplausos vigorosos.
Na madrugada e manhã do passado dia 19 de Janeiro, vigorosos foram os ventos e as chuvas, frágeis foram as construções humanas e sólido foi o bater de enormes e vetustas árvores, algumas contando mais anos do que os 90 do saudoso talento de Palmira.
As palmeiras ter-se-ão aguentado, agarradas ao solo pelas famosas raízes que furam fundo. Mas muitas foram as árvores que fizeram ruir a verdade da sua fama teatral. Raízes expostas ou partidas pelo meio, sozinhas num canteiro de avenida ou às centenas no interior de um frondoso pinhal ou jardim botânico, pequenas ou grandes, novas ou velhas, milhares foram as árvores que, desta vez, não morreram de pé. O vento falou mais forte nesta peça.
Quem diz árvores, diz telhados e barracões, postes e fios, chaminés e portões, muros e vedações. Nem tudo o vento levou – permitam o novo jogo de palavras com as artes performativas, desta feita, em referência ao filme ainda mais antigo (1939) de Victor Fleming. Mas o facto é que este Portugal não está habituado a sopros a mais de 120 kms/h – dizem os especialistas que assim foi – e muita coisa voou. O cenário final foi o de um teatro abandonado, onde só as imagens da destruição permaneceram em palco.
Foi assim de Norte a Sul do País, mas foi na nossa zona Centro que os estragos se revelaram mais pesados. Para além das centenas de árvores tombadas, das muitas telhas sumidas, de uma ou outra casa a céu aberto, foram as redes de electricidade e de comunicações que mais sofreram o rombo e, delas dependentes nalguns locais, as redes de abastecimento de água secaram.
Dez dias depois, já todos vimos em fotos e vídeos o mesmo que observáramos ao vivo, naquela manhã de sábado. Já todos lemos em jornais os muitos relatos dos danos e prejuízos causados. Já todos percebemos o que teremos de refazer, replantar e reconstruir. Por isso, não fazemos deste assunto notícia, mas tema de editorial, embora em formato noticioso e ilustrado. Fica arrumado neste cantinho, para que permaneça mais como memória do que passou do que como novidade que já não é.
Na Golpilheira, também sofremos consequências. Também aqui houve árvores deitadas, meia dúzia de chaminés esfumadas, alguns ripados destelhados. A maioria de nós esteve “apenas” dois dias sem luz e não chegou a ter falta de água, mas houve alguns lares da freguesia que ficaram sem energia e sem o líquido mais precioso durante toda a semana seguinte.
Também esta edição do Jornal da Golpilheira sofreu o adiamento de uma semana, graças ao descanso forçado nesse fim-de-semana de escuridão.
Ainda assim, comparando com as cenas vistas em terras vizinhas, nem nos podemos queixar muito. Seja como for, que a memória sirva para maiores cautelas futuras, se tal nos for possível. Porque as forças da natureza, ainda que previstas, são de uma capacidade demolidora imprevisível.
Felizmente, também, passada a tormenta, não houve vítimas humanas a lamentar. Do mal, o menos. Ficámos todos de pé… e não como as árvores.

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Foto: Miguel Chagas

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