Editorial 272: Emoções fortes e contraditórias

Editorial 272: Emoções fortes e contraditórias

A Páscoa é uma celebração cheia de emoções fortes e contraditórias. Depois de quarenta dias de preparação, em espírito de recolhimento e purificação interior, chega uma Semana Santa, assim chamada por estar nela concentrada a derradeira acção de salvação oferecida por Deus aos homens. Começa por ser de alegria e cantos de vitória, com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, adivinhando-se que iria tomar o poder, libertar o povo da opressão romana e recuperar o reino prometido a Israel. Mas nesse mesmo Domingo de Ramos, o Evangelho da Paixão vem lembrar que o seu reino não é deste mundo e que o seu destino, afinal, seria uma vergonhosa morte na cruz. É o chamado “banho de água fria” para os seus seguidores. Depois, o centro dos acontecimentos num tríduo (três dias) vertiginoso. Na Quinta-Feira, um jantar em que Ele se despede dos amigos e, ao mesmo tempo, promete ficar sempre com eles. Diz que aquele pão e aquele vinho são a sua carne e o seu sangue. Devem ter pensado que enlouqueceu e fogem, assim que chega a confusão. Nessa noite e na Sexta-Feira seguinte, o caminho é de prisão, acusações, julgamento, açoites e morte. Sábado é dia de derrota consumada e de esperanças enterradas na rocha. Mas algo aconteceu nessa noite. Certo é que Ele não estava no túmulo no Domingo de manhã. Afinal, tinha prometido e cumpriu: ressuscitou para mostrar que a morte não é a última cena.
Isto é o que celebram os cristãos. Para quem não tem fé, é apenas teatro, memória ou fantasia. É, sobretudo, o impossível.
Agora, olhemos o mundo actual de pandemias, guerras, fomes, crises, catástrofes naturais, vidas difíceis para muitos e morte para alguns. Não é teatro nem fantasia, esta dura realidade. Sem fé, é um permanente sábado de túmulo. Mas, à luz da Páscoa, será oportunidade para encarnar as emoções fortes e contraditórias da dor, que não negamos, e da esperança vitoriosa, em que acreditamos. Afinal, só a Páscoa pode explicar o sentido da vida e dar saída ao caminho do calvário humano. Só ela nos salvará do desespero e da loucura a que esta sociedade parece condenada. Só nessa perspectiva poderemos ver a luz de domingo a que estamos destinados. Até lá, resta-nos viver o melhor que pudermos a travessia. Esse mesmo Cristo deixou o segredo, que é um só mandamento: amar.
Convidamos a ler os temas fortes desta edição com essa lente: a Quaresma são 40 dias, mas a Páscoa são 50. Afinal, há mais tempo de vida do que de morte. A todos, até ao Pentecostes, em que virá o tal Espírito que Ele prometeu, votos de Santa Páscoa!

LMF

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