>Diversidade de contributos numa mesma missão de CUIDAR

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>1º aniversário do Hospital da Misericórdia da Batalha

“Foi um ano em que levámos a cabo a missão dos cuidados continuados, em trabalhos suados, numa obra de bem-fazer que procurámos sempre que fosse bem feita”. Foi com estas palavras que António Monteiro, provedor da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia da Batalha (ISCMB), abriu a sessão do primeiro aniversário do Centro Hospitalar de Nossa Senhora da Conceição (CHNSC), no passado dia 6 de Dezembro. Em jeito de apresentação do espírito que preside à instituição, esta frase pode também resumir o trabalho que, de facto, ali tem sido desenvolvido desde a sua abertura oficial, há cerca de um ano.
A cerimónia de aniversário contou com a participação de cerca de uma centena de irmãos da Misericórdia da Batalha, que se juntaram nesta data festiva aos utentes, à equipa de médicos, enfermeiros, administrativos e auxiliares, ao grupo de voluntários que ali prestam apoio e a alguns convidados, como os presidentes da Assembleia e da Câmara Municipal, respectivamente, Francisco Freitas e António Lucas, o presidente do Concelho de Gestão do Grupo Misericórdias Saúde, Salazar Coimbra, e um representante do Secretariado Nacional da União das Misericórdias Portuguesas, Júlio Freire.

Presente de sucesso rumo ao futuro
“O sucesso deste ano de trabalho deve-se à excelente equipa de profissionais, em todos os sectores desta Unidade de Cuidados Continuados (UCC), mas também à profícua colaboração com os parceiros nacionais e regionais da Segurança Social, da Saúde e da autarquia”, continuou o provedor, deixando, no entanto, a nota de que “este é um arremedo de obra feita, pois ainda há muito trabalho a fazer para ampliar este tipo de serviços sociais e também diversos problemas a enfrentar, como seja a sustentabilidade financeira do projecto”, muito dependente das políticas de Saúde do Governo.
A título de exemplo, António Monteiro referiu o anunciado serviço domiciliário de medicina e enfermagem, para o qual defendeu que se “aproveite a experiência, os meios e as equipas já presentes no terreno por parte dos serviços de apoio domiciliário das Instituições Privadas de Solidariedade Sociais” (IPSS), como é o caso da Misericórdia da Batalha, instituições que “devem ser ouvidas pelo Estado antes de ditar as suas sentenças vindas de cima, normalmente acompanhadas de complexas obrigações e burocracias para as candidaturas”. E atreveu-se a sugerir que “em vez de mais uns quilómetros de auto-estrada, de mais uns relvados para o jogo da bola, de mais uns minutos na velocidade do TGV, o Governo usasse uma parte dos nossos impostos para financiar os serviços de apoio domiciliário, possibilitando a sua extensão aos fins-de-semana e o alargamento do leque de serviços para além das refeições e trabalho doméstico, aos cuidados médicos e de enfermagem”.
Ampliar as valências da acção social é também uma preocupação da Câmara da Batalha, como referiu na ocasião António Lucas, defendendo o “rápido regresso às negociações, entretanto paradas, para a transferência de competências do Governo para as autarquias nas áreas sociais, como sejam a Educação e a Saúde”. O presidente da edilidade frisou a colaboração que tem sido prestada ao CHNSC, por ser “uma infra-estrutura de topo na região e uma mais-valia fundamental no Concelho”, defendendo a continuidade deste serviço noutras áreas e para outros públicos, “onde a autarquia tem investido, mesmo sem ter essas competências específicas, como é exemplo a recente criação de um Centro de Ajudas Técnicas, em colaboração com a Segurança Social, que permite uma resposta rápida e eficaz aos pedidos dos munícipes de equipamentos como camas articuladas, cadeiras de rodas, etc.” Outro exemplo apontado foi a tentativa de implementação do serviço SOS Vizinhos, visando um apoio directo às pessoas dependentes por parte de um vizinho, devidamente ajudados financeiramente, e que “apenas não está em execução porque, infelizmente, apenas uma pessoa em todo o concelho se manifestou disponível para este trabalho”.

Voluntariado em destaque
Esta disponibilidade para a ajuda a quem mais precisa é uma das condições essenciais para o funcionamento de excelência deste tipo de projectos. Também neste caso, a instituição registou uma resposta de qualidade, como salientou Carlos Monteiro, coordenador-geral do CHNSC: “O grupo de voluntariado, que desde a primeira hora se organizou e se disponibilizou para colaborar com a unidade no apoio aos doentes, assegura essa colaboração durante todos os dias da semana, período de férias e feriados, o que não é comum no voluntariado que se faz pelas demais unidades de saúde”. Como exemplo desse compromisso, foi referida a organização pelos voluntários de uma campanha para a oferta de um moderno sistema de som e projecção de imagem que foi estreado nesta sessão.
Considerando que “também aqui marcamos a diferença”, este responsável lembrou o lema que move toda a equipa: “associar à vertente do trabalho, um grande espírito de solidariedade e de amor ao próximo”. Esse será, aliás, o segredo para o sucesso, que se mede pela satisfação geral dos mais de 150 doentes que já passaram por esta UCC, como prova o facto de “todos os que regressaram a suas casas, apresentando grandes resultados de recuperação, o fizeram com lágrimas de emoção, por sentirem que receberam aqui todo o acolhimento, tratamento, carinho e respeito, que não encontraram em nenhuma outra unidade de saúde por onde haviam passado”. Graças a isso, conclui Carlos Monteiro, “deixaram-nos a agradável sensação do dever cumprido”.

Cuidar, mais do que tratar
O mesmo espírito é assumido por todos os profissionais, desde o corpo clínico aos administrativos e auxiliares. “Curar às vezes, aliviar frequentemente, mas confortar sempre” é o lema apresentado por José Leite, director clínico desta UCC. Honrado com o convite que lhe foi dirigido há um ano, o médico afirma encontrar neste espaço o lugar ideal para o cumprimento dessa missão, num compromisso entre exigência de profissionalismo e primazia ao humanismo com que se desempenham as tarefas. “A primeira preocupação é a saúde, mas o alívio da dor é o primeiro objectivo”, num processo que deve envolver o doente, tendo como finalidade o cimentar da esperança e qualidade de vida enquanto se vive (ver excertos do seu discurso no texto ao lado).
Na ocasião, foi projectado um filme sobre este primeiro ano de actividade, que tornou clara esta mensagem. Os rostos iluminados pelo sorriso foram mais evidentes do que as lágrimas de dor, a força de vontade para voltar a aprender os primeiros passos foi mais visível do que o desânimo de um AVC, a luz dos espaços e ambientes quase escondeu a realidade soturna da doença que motivou o levantar desta casa. Como bem resumiu Graça Pereira, enfermeira-chefe da unidade, em forma de poema, é o esforço multidisciplinar de muitos que dá sentido a este trabalho, na “certeza de que estamos a crescer”.

Unidade modelo
O presidente do Grupo Misericórdias Saúde reconheceu também o trabalho exemplar desta unidade no âmbito da rede nacional, salientando o papel deste Governo na solução do problema dos Cuidados Continuados, em diálogo com as Misericórdias e outras IPSS. “A Batalha é um bom exemplo do serviço que queremos prestar”, afirmou Salazar Coimbra, alertando para o facto de “continuarmos atentos às necessidades e a defender um projecto que deverá ir mais longe, abrangendo os apoios domiciliários nas áreas da medicina, enfermagem, psicologia, terapias da fala e ocupacionais, etc.”
Na mesma linha, o representante da União das Misericórdias Portuguesas referiu a importância da cooperação com o Estado, “que não conseguirá nunca responder a todas a necessidades sociais e poderá contar com o inestimável serviço das Misericórdias”. Júlio Freire apontou o exemplo do CHNSC como “das melhores instituições a nível nacional, com provas dadas no serviço às pessoas, com qualidade e humanismo, pela dignidade humana”. Referindo os elevados índices de satisfação dos utentes, louvou o facto de “terem começado no início do projecto e revelado a capacidade e a coragem de aprender”.
Se dúvidas havia ainda, o testemunho espontâneo de alguns utentes ali presentes desfê-las por completo. O senhor Joaquim afirmava com comoção: “eu não era capaz de andar nem de fazer nada e recebi aqui todo o carinho e força para recuperar essas capacidades”. Também a dona Alice, primeira utente desta unidade, marcou presença no acto. As lágrimas de gratidão corroboraram as palavras da sua filha: “melhorou muito e sente-se aqui muito acarinhada por uma equipa que poupou imenso sofrimento, a ela e a toda a família”. Curiosamente, neste momento partilha o quarto com o marido, que foi também ali internado posteriormente, “num verdadeiro lar onde ambos se sentem amados”.
Voltando à alegria, a sessão terminou com uma bonita interpretação musical a capela pelo grupo Domus, seguindo-se a Missa de acção de graças, presidida pelo padre franciscano Joaquim Costa, e um beberete de convívio entre todos.
Texto e fotos: Luís Miguel Ferraz

“Curar às vezes, aliviar frequentemente, mas confortar sempre”
Copiei para lema desta instituição a citação de Oliver Holmes, médico francês: “Curar às vezes, aliviar frequentemente, mas confortar sempre”. O doente é um ser humano, é uma pessoa, é um ser moral, é um ser com dignidade, embora muitas das vezes numa situação muito debilitada, não deixando de ser considerado um valor supremo, isto é, de valor incomensurável. O objectivo do nosso trabalho é o bem-estar e a saúde do doente internado.
Quem trabalha em instituições como esta é obrigado a ver o mundo e a comportar-se de forma diferente – mais fraterno, menos egoísta, mais altruísta, muito menos economicista e sempre disponível. A função de todos os colaboradores é dar mais vida ao tempo que se junta à vida, para muitos já bastante curta e sem interesse, lembrando-lhes que por cada minuto de tristeza perdem sessenta segundos de alegria. Exige-se a todos a cordialidade, a empatia e o bom senso de saber olhar, de sorrir e de escutar quando necessário, e responder às perguntas difíceis, fugindo das conspirações do silêncio, mas… “não digas o que sabes, sem saberes o que dizes”.
Para todos nós é obrigatório conhecermos o conceito de confidencialidade e de segredo profissional, sermos críticos de nós próprios e nunca abandonarmos o doente. Devemos respeitar a personalidade, a dignidade, a intimidade pessoal e, acima de tudo, a sua autonomia, comportando-nos sempre de forma responsável, cordial e emocionalmente estável. A paciência é amarga, mas o seu fruto é doce. É importante, para criar respeito, chamar o doente pelo seu próprio nome.
Não sou defensor do “já vou”, mas sim do “estou aqui”, pois, como dizia Madre Teresa de Calcutá, “a falta de amor é a maior das pobrezas”. Gosto das coisas simples e directas, considero-me um profissional muito exigente comigo mesmo, pelo que também o exijo aos outros. Do corpo clínico apenas espero que cumpram o juramento de Hipócrates: ” a saúde do meu doente será a minha primeira preocupação”.
O nosso princípio é prolongar a vida com sentido, mas evitando terapêuticas inadequadas, cujo objectivo seja só atrasar a morte. É imperativo o alívio da dor, uma condição inalienável dos cuidados de saúde, e o combate à solidão e ao isolamento, pois quando não temos ninguém que estenda a mão, caímos no vazio e no agravamento da doença que conduz à morte.
Devemos envolver o doente nas decisões, de forma clara e honesta, conservando sempre a sua individualidade, os seus valores pessoais e o seu projecto de vida e não julgar as suas decisões que possam ser contrárias às nossas crenças. Aos familiares direi apenas que, na antiguidade clássica, um médico que tentasse prolongar a vida de alguém que não tinha condições de recuperar a sua saúde era visto como agindo de forma não ética, sendo o único dever do médico ” ajudar” ou “não causar dano”.
A morte é um fenómeno inevitável e inerente à própria vida, pois nascemos com uma enfermidade mortal, que se chama vida. Actualmente, enfatiza-se a cura e o prolongamento da vida, exigindo-se a utilização da tecnologia cara e nem sempre ajustada à situação, em tratamentos que o mantêm a vida durante algum tempo, normalmente com sofrimento, dor, solidão e angústia.
Por outro lado, vivemos numa cultura e num tempo em que é suposto haver um medicamento para cada sinal e sintoma, criando a pressão ao médico na prescrição e em impor limites. Muitas vezes, o que custa não é saber o que fazer, mas decidir o que fazer e não fazer, tal é a carga psicológica exercida pelos familiares.
A morte não é uma derrota para o médico, se este oferecer à pessoa, até ao fim da sua existência, a melhor qualidade de vida possível. Não importa quando se morre, importa sim como se vive antes de morrer. A maior gratificação que um médico tem é cuidar bem da pessoa enquanto ela vive e ninguém regozija mais pelo êxito do que ele, que muitas vezes daria a sua própria vida em troca, mas nem sempre é possível essa capacidade que, para mim, só Deus tem.
Para terminar direi que temos que respeitar os doentes por aquilo que foram, por aquilo que são, por aquilo que já não são, ou por aquilo que virão a ser. A eles aconselho a citação dos Rolling Stones: “Nem sempre podes conseguir o que queres, mas, se tentares, pode acontecer que obtenhas o que necessitas”.
Dr. José Leite, director clínico do CHNSC
(excertos do discurso nesta sessão)

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