>EDITORIAL | Prefácio “Golpilheira Medieval”

>EDITORIAL | Prefácio “Golpilheira Medieval”

>O nome de uma terra encerra bem mais do que a delimitação das suas fronteiras. E mais, muito mais, do que a identificação de um aglomerado urbano, um centro de movimentações sociais ou um conjunto de casas, comércios, serviços e indústrias. Seja um continente, um país, uma cidade ou uma aldeia, o seu nome engloba significados múltiplos, com o denominador comum de constituírem partes do mesmo todo, a que poderemos chamar uma identidade cultural. Uma “alma” construída em cada rua, em cada edifício, em cada espaço onde se cruzam histórias de vidas e de tempos passados e presentes, leivas de uma História lavrada pelos anos, às vezes séculos. Uma espécie de aura que envolve as paredes e as gentes que as habitam e que transforma essa relação de espaço/pessoa em sentimento, carregado de fascínios e desencantos, amores e tragédias, glórias e decadências.
Assim, a importância de uma terra mede-se, não por quilómetros ou número de habitantes, mas pelo sangue, suor e lágrimas que nela se verteram e, como é óbvio, pela intensidade das vidas que nela se ergueram.
No caso da Golpilheira, se dúvidas houvesse, esta publicação revela toda a profundidade dessa identidade cultural, dessa “alma” que encarna, ainda hoje, em todos aqueles que se orgulham de aqui terem nascido ou de aqui viverem os seus dias.
Território apetecível, desde as primeiras civilizações, pelo vale frondoso e fértil do Lena, aqui se fixaram os primeiros homens e mulheres que decidiram fixar-se. Aqui cresceram e se multiplicaram as primeiras famílias que decidiram crescer e multiplicar-se. Aqui morreram e mataram as primeiras e as sucessivas greis que lutaram por garantir neste local um espaço para a edificação da “sua” cidade. Testemunham-no os vestígios deixados em Collipo por povos como os túrdulos, os romanos e outros – infelizmente já raros, porque destruídos por quem não soube honrar esse legado.
O mesmo sucedeu quando Portugal decidiu nascer como Povo e Pátria, pelo braço guerreiro de D. Afonso Henriques. Encostada ao surgir da nacionalidade, Leirena foi fundada por este nosso primeiro rei, com atribuição de foral em 1142, servindo de bastião ao estender do seu domínio até aos Algarves. E Alpentende – que abrangia a actual área da Golpilheira – logo por essa altura começa a surgir nos documentos, como região aprazível para o cultivo dos campos e a vida das gentes, mencionada por reis, nobres e clérigos influentes. Testemunham-no os escritos aqui publicados.
É natural que esta relação tão enraizada e intensamente construída entre o território e os seus obreiros resulte, ao longo dos tempos, num sentimento forte de encantamento, de comunhão e de amor. A “alma” que se lê nessa História acaba por revelar-se na “alma” do povo que lhe dá o rosto humano e que, por cima do passado instituído, desenha o seu presente e planeia um futuro ainda por concretizar.

Esta obra é também fruto desse amor à terra que nos viu nascer. Na verdade, apesar de tantas e tão ricas memórias, pouco ou nada se tem publicado sobre a Golpilheira. Por isso, ao pensarmos na forma de associar o Jornal às comemorações das Bodas de Prata da sua elevação ao estatuto de Freguesia, foi essa a primeira ideia: editar um livro. Poderíamos optar por recolher alguns textos descritivos ou de opinião, juntar algumas fotos, mostrar curiosidades. Mas queríamos algo mais substancial, que ficasse por si só como um documento histórico, um marco da nossa identidade cultural.
Para tal, ninguém melhor do que o Doutor Saul António Gomes, professor da Universidade de Coimbra desde 1987, onde integra o Centro de História da Sociedade e da Cultura, sócio-correspondente da Academia Portuguesa da História e colaborador do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. Com mais de duas dezenas de livros e um extenso rol de artigos publicados, nomeadamente sobre a Batalha e o seu Mosteiro, este prestigiado historiador leiriense será dos que mais conhecimento reúne sobre a região concreta em que nos situamos. Acedeu graciosamente ao convite e lançou mãos a um trabalho de pesquisa, transcrição e análise de textos, como nunca se tinha feito sobre a nossa localidade.
A Golpilheira ficará sempre devedora e grata a este investigador, também pela magistral Introdução que faz sobre os documentos, numa exposição clara, sucinta e acessível a qualquer leitor.
Quanto às imagens do património, paisagens e locais que ilustram este volume, são de várias datas, mas optámos preferencialmente por fotografias tiradas a 31 de Dezembro de 2009, precisamente 25 anos depois da criação da Freguesia. Sendo uma edição comemorativa dessa data, fica assim registado o seu estado actual. Na forra da capa, publicamos um mapa histórico (1941-1947), anotado pelo autor. Na forra da contracapa, a imagem de satélite de 2005, tal como é neste momento exibida online pelo Google Earth. O desenho da raposa é original do nosso grafismo e representa a origem do nome Golpilheira, do termo latino vulpes.
Escolhemos o título “Golpilheira Medieval”, porque é sobretudo da Idade Média o espólio documental reunido, embora se estenda também à época Moderna.

Cumpre-nos agradecer a solícita cooperação da Câmara Municipal da Batalha neste projecto, seja pelo incentivo e interesse pessoal do Presidente, António Lucas, seja pela decisão unânime do Executivo de o editar connosco. Só assim se tornou viável um produto com esta qualidade, fazendo jus ao seu conteúdo e dando-lhe na forma o valor que tem de facto. Embora estejam entre as suas competências a promoção da cultura e a defesa e divulgação do património histórico do Concelho, devemos sublinhar a forma empenhada e objectiva como o Município apoiou esta publicação sobre a sua mais recente freguesia.
Um muito obrigado, também, aos mecenas apresentados nesta página, que responderam ao convite a patrocinar a impressão. Não tendo o Jornal os fundos necessários para a sua parte na co-edição, foram estas as instituições e empresas que garantiram esse financiamento, mercê da consciência social e cultural dos respectivos administradores e empresários.
Agradecemos, ainda, a outras parcerias: à Junta de Freguesia da Golpilheira, pelo acompanhamento permanente e pelo apoio logístico à edição e à respectiva apresentação pública; ao CEPAE – Centro do Património da Estremadura, pelo estímulo e pela ligação ao meritório trabalho que vem desenvolvendo em prol da cultura da região; à Folheto Edições & Design, pela atenciosa colaboração técnica na produção e posterior distribuição.
A palavra final vai para cada um dos golpilheirenses, naturais ou residentes. A eles se dedica o livro, que contém parte da sua vida, da sua “alma” passada e presente. Na verdade, porque são páginas da sua História, esta obra é deles. Nossa.
Prefácio do livro
“Golpilheira Medieval – Documentos Históricos”

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