Entrevista a Inês Monteiro, jovem voluntária da Golpilheira: “Um dia podemos ser nós a estar daquele lado”

Entrevista a Inês Monteiro, jovem voluntária da Golpilheira: “Um dia podemos ser nós a estar daquele lado”

Inês Monteiro, jovem de 21 anos natural da Golpilheira, estudante do último ano do curso de Desporto e Bem-Estar no Instituto Politécnico de Leiria, não deixou que a pandemia a impedisse de realizar os sonhos. Por iniciativa própria, embarcou numa experiência de voluntariado e nem os tempos tão difíceis como os que vivemos actualmente a deixaram com medo de ir ajudar os que mais precisam. O Jornal da Golpilheira foi falar com ela, para partilhar com os leitores a sua experiência e mostrar que, apesar de tantas notícias de dores e tristezas, há muitas coisas positivas a acontecer na nossa sociedade por estes dias.
Entrevista de Ana Ribeiro

Como surgiu a ideia de ires fazer voluntariado?
Sempre quis fazer voluntariado e sempre gostei de ajudar os outros. Em Março do ano passado, quando a pandemia começou, inscrevi-me nas Forças Armadas para ser voluntária, pois nessa fase ainda não tínhamos bem noção da evolução da pandemia e eles começaram a recrutar voluntários. No final do ano, contactaram-me para ajudar no Convento de Santa Clara. Na semana passada, contactaram-me novamente para saber se ainda estava disponível para ir para um lar; fiz logo o teste à covid-19 para poder ir. Coloco-me sempre na situação deles, na pele deles, e penso “se fosse eu, também gostava que me ajudassem”, porque um dia podemos ser nós a estar daquele lado e isso nunca, jamais podemos subestimar.

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Foi essa a tua primeira experiência como voluntária?
Já tinha feito voluntariado numa associação de cuidado a animais, a APAMG. Mas esta foi mais a sério, estar num lar, nesta fase em que estamos a viver, a pior altura desde o início da pandemia; era impensável dizer que não. Foi uma experiência curta, de 25 a 28 de Janeiro, mas o suficiente para retirar dela ensinamentos que levo para a vida toda.

O que é que os teus pais acharam da ideia?
Antes de ir, falei com os meus pais e eles não gostaram muito da ideia. Eles têm receio e eu temo por eles também. Mas tenho todos os cuidados necessários, sou bastante cautelosa nesse aspecto, tento não ter muito contacto directo com eles, inclusive usamos casas de banho diferentes. Agora que acabei o voluntariado, porque, felizmente, os funcionários que estavam em isolamento regressaram ao lar no dia 1 de Fevereiro, fico em casa os 14 dias de quarentena para nos salvaguardar, apesar de saber que os meus pais não têm nenhuma doença de risco.

Porquê um lar, um sítio tão exposto à pandemia do covid-19?
Porque era onde era preciso ajuda. E porque não posso estar num hospital ou na “linha da frente”. Esta ajuda fez-me sentir útil numa altura em que o País e o seu sistema de saúde estão a “rebentar pelas costuras”. Só espero poder continuar a realizar mais voluntariado como este e experienciar mais momentos como estes que nos fazem sentir tão vivos e ao mesmo tempo tão frágeis. Tento fazer a minha parte, mas fica sempre um sentimento agridoce de que podia ter feito mais; mas acho que vai ser sempre assim.

Quais eram as tuas tarefas no lar?
Ajudava a dar os pequenos-almoços e os almoços e a medicação, tendo atenção se todos tomam a medicação conforme prescrito, pois há idosos mais autónomos e outros não tanto; neste caso, temos de lhes dar o comer. Repomos o material, como luvas, máscaras e os EPI nos locais de equipagem. Conversamos com os idosos, fazemos videochamadas com os familiares, pois é a única forma de “receberem” visitas.

Que cuidados tinhas de ter?
Sempre que era necessário irmos aos quartos, mesmo que sejam pacientes “não-covid”, equipamo-nos com o equipamento de protecção individual, que inclui batas, “pezinhos”, duas máscaras, viseira, luvas, touca, etc. Tudo o que é necessário para a nossa protecção.

Registaram-se casos dentro do lar?
Sim, infelizmente. Foram cerca de 50 pessoas, entre funcionários e utentes, segundo vi na comunicação social, mesmo na véspera de arrancar o processo de vacinação.

Quantos idosos estão alojados no lar e quantos deles já levaram a vacina?
Segundo o site do lar, “a estrutura residencial para pessoas idosas tem actualmente a capacidade máxima (lotada) de 84 idosos”. Quanto à vacinação, no site referem que foram vacinados um total de 102 utentes e colaboradores.

Tem tido algum tipo de apoio por parte da Camara Municipal?
Sim, tanto em equipamento de protecção como na logística de testes e vacinas.

Qual é a dureza de conviver com pessoas tão frágeis?
É um acordar para a realidade e perceber que, se correr bem, um dia vamos chegar à idade deles e podemos estar exactamente ali, como eles, dependentes da ajuda dos outros. É triste depararmo-nos com esta realidade e só desejo que, quando for a minha vez, não estejamos a viver uma pandemia como agora.

Sentes que o voluntariado te enriquece?
De variadas formas. Acho verdadeiramente importante reconhecermos que somos elementos fundamentais na nossa comunidade e nos devíamos ajudar uns aos outros. Existem diversas formas de o fazer, o voluntariado é uma delas. Deveria ser considerado dever cívico. Enriquece-nos ao ponto de sermos melhores pessoas e não há nada mais gratificante do que isso.

O que retiras desta experiência?
Que qualquer um de nós pode ajudar, basta termos vontade, porque irá sempre haver alguém que precisa da nossa ajuda.

É essa mensagem que queres deixar às pessoas que podem ter esse desejo de ajudar e não sabem como?…
Sim. Às vezes, pensamos que não temos o que é preciso, mas para ajudar só precisamos mesmo de vontade; muitas vezes nem precisamos de ter formação. Procurem por instituições, projectos, comunidades… um exemplo: a Câmara Municipal tem um banco de voluntariado onde nos podemos inscrever e, caso seja necessário, somos chamados. Ou então agimos por conta própria e oferecemos a nossa ajuda àqueles que, por exemplo, estão em isolamento e precisam de ir às compras…

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