>Jornal da Golpilheira noticiado no Região de Leiria

>Jornal da Golpilheira noticiado no Região de Leiria

>Ainda a questão da isenção dos media…

Sei que o assunto já lá vai à distância, mas como só saímos à rua uma vez por mês, não tivemos oportunidade para o comentar antes. Trata-se do facto de o Jornal da Golpilheira ter sido notícia no semanário Região de Leiria, na sua edição de 9 de Fevereiro.
Espantava-se – pelos vistos – este jornal por termos tomado uma posição editorial clara quanto à questão do aborto, assumindo a nossa inspiração cristã. Não foi um trabalho sobre a posição dos jornais regionais, nem sobre outros assuntos do mesmo contexto. Foi uma notícia exclusivamente sobre o Jornal da Golpilheira, onde expunha a nossa decisão de não publicar textos de opinião da campanha pelo “sim”, assumindo, no entanto, total isenção quanto à publicação de notícias sobre o assunto, de ambos os lados da mesma campanha. Como, aliás, a própria notícia do Região de Leiria reconhece, ao referir que “o director da publicação garante que a isenção é mantida no que se refere ao tratamento noticioso” e dando nota, quanto à nossa publicação do debate sobre o aborto que decorreu na freguesia, de que o jornal “acabou por transcrever, na íntegra, o teor das intervenções, argumentos do ‘Sim’ incluídos”.
Espantamo-nos nós, em primeiro lugar, pela importância que nos foi dada por este semanário regional. É bem sinal da importância que tem o nosso pequeno “jornal de colectividade da Batalha”, no contexto das dezenas de publicações regionais existentes, muitas das quais, aliás, tomaram uma posição semelhante.
Espantamo-nos, depois, por a nossa posição editorial ter sido motivo de notícia. Como referi, foram muitos os jornais e outros órgãos de comunicação, regionais e mesmo nacionais, que decidiram tomar uma posição conforme os seus estatutos editoriais. Como explicava no editorial em causa na notícia, uma coisa é a opinião que se publica, e que livremente a direcção do jornal pode escolher, outra coisa são as notícias, onde deve imperar a isenção e o rigor.
Já agora, adianto que nem teria sido preciso ter anunciado tal decisão e não foi necessário grande esforço para a cumprir. É que acabámos por não receber na redacção qualquer opinião em favor do sim, à excepção da carta de uma leitora, cujos argumentos eram mais contestatários à posição do jornal do que esclarecedores quanto à matéria do referendo, muitos deles, aliás, completamente descabidos. E sobre o assunto acabámos também por publicar, sobretudo, textos e documentos da Igreja e instituições a ela ligadas, como fazemos regularmente a propósito de muitos outros temas sociais.

Exemplo da Renascença
De facto, esta polémica da isenção dos media começou bem cedo, quando a Rádio Renascença (RR) tomou a sua posição pelo “Não”: «Nos seus espaços informativos, a Renascença actuará com a objectividade própria dos meios de comunicação social. Saberá, por isso, ouvindo as diversas partes, distinguir factos e propaganda; notícia e opinião. No que à posição da Renascença diz respeito, não podem, no entanto, restar dúvidas: a Renascença situa-se inequivocamente do lado da vida e do “Não”, perante a pergunta posta a sufrágio.»
Muitas vozes públicas a criticaram, mas a contestação acabou por se esfumar, com ajuda de alguns comentadores que explicaram essa mesma separação entre opinião e informação e o direito à liberdade de “tendência” das instituições, como foi o caso de Mário Lino, no Público de 4 de Dezembro. Ou de Cândido da Silva, dois dias antes, no mesmo jornal: «Em casos como este, o pior serviço que se pode prestar à credibilidade é o de fingir que se é isento, ao mesmo tempo que se edita a informação de acordo com as próprias convicções. A hipocrisia paga-se caro, enquanto a clarificação, necessitando de coragem e capacidade para correr riscos, pode ser um trunfo. (…) A iniciativa da Rádio Renascença merece ser elogiada. Revela que os seus responsáveis não dissimulam aquilo em que acreditam e, também, que não têm medo de passar pelo exigente teste da credibilidade que consiste em abrirem o jogo quando têm pela frente uma campanha para o referendo que exige jornalismo feito com critério.»
Outros meios de comunicação que vieram a seguir, já tinham caminho aberto.

Clareza
Sempre defendemos a clareza de posições quanto aos valores em que acreditamos e não podíamos ter posição diferente neste caso.
E não somos os únicos que defendemos esta forma de estar, como se lê na opinião de Cândido da Silva, citada atrás. Na mesma linha, escrevia Pacheco Pereira, na revista Sábado de 18 de Janeiro: «Pela primeira vez de forma mais sistemática, (…) os órgãos de comunicação social portugueses começam a tomar posições editoriais numa eleição, neste caso o referendo sobre o aborto. Foi o que fez a Rádio Renascença (a favor do “não”), o Correio da Manhã [e o semanário Sol] (a favor do “direito à vida”), e o Le Monde Diplomatique em português (a favor do “sim”). É um dado novo na nossa tradição comunicacional. (…) Tendo em conta as características do órgão de informação e o seu estatuto editorial, parece-me um progresso estas tomadas de posição às claras. O contrário, as tomadas de posição às escuras, que muitas vezes acontecem, é que não são nada aceitáveis.»
Não queremos entrar em polémicas com ninguém, mas já que o Região de Leiria nos citou, que dizer do facto de, nas edições das 5 semanas anteriores ao referendo, terem sido publicados naquele jornal 8 textos dos seus comentadores de opinião a defender o “sim” e apenas 1 a favor do “não”?
Poderá ser coincidência, aceito. Mas, mesmo que o seja, essa diferença de espaço concedido aos dois lados da campanha influencia, obviamente, os leitores. Tal como influencia o destaque de primeira página, duas semanas antes do referendo, ao facto de a maioria dos deputados da região ir votar “sim”. E também outras formas de abordagem a assuntos que, embora se possam considerar “objectivos”, servem à argumentação de um lado e atacam a imagem do outro. Aliás, desde 2004, foi recorrente nas suas páginas a defesa de um novo referendo e de mudança da lei. Afinal, não corremos todos o risco de – usando as palavras de Pacheco Pereira – “tomadas de posição às escuras”?

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