>Visita Pascal na nossa paróquia

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>Persistência da “tradição”

Na paróquia da Batalha, a visita pascal cumpriu, este ano, a tradição. De casa em casa, o padre preside à bênção da casa, acompanhado por dois ajudantes, um com a caldeirinha da água benta, outro com a missão de recolher as ofertas para o fundo paroquial. Na Golpilheira, foi no passado domingo de Pascoela.
Em tempos passados, era o pároco que “dava conta” de toda a paróquia, durante a primeira semana da Páscoa, como recordam alguns paroquianos. Em todas as casas havia alguém para abrir a porta e o pároco conseguia dar a volta durante uma semana inteira, recolhendo galinhas e outras ofertas para o seu sustento. Actualmente, com o crescimento populacional, o pároco já não consegue cumprir sozinho esta tarefa. Só com a ajuda de dois ou três sacerdotes se pode garantir a visita aos lares, que já não são todos, como antigamente, mas apenas aqueles “que nos esperam à porta, ou colocam um tapete de verdura a indicar o desejo de nos receber”, esclarece o padre José Ferreira. Por outro lado, dado que a maioria das casas estão vazias durante a semana, pois todos os membros da família estão empregados ou são estudantes, evoluiu-se para a visita só aos domingos, o que arrasta o serviço até ao terceiro domingo pascal.
Não existe qualquer inconveniente, pois a bênção de Deus é preciosa em qualquer altura do ano e, como sabemos, a Páscoa não é um dia, mas sim um tempo que dura 50 dias, até ao domingo de Pentecostes. Mas há quem considere que é demasiado andar durante três semanas a dar as boas-festas, pelo que era melhor ser durante a semana, em vez de ser só aos domingos. No entanto, é melhor assim do que andarem leigos a fazê-lo, dizem outros, que afirmam até fechar a porta nesse caso. Existe a consciência de que é Deus que abençoa as casas e as famílias, mas se for um leigo não é a mesma coisa, não é bem aceite, “pois o padre tem outros poderes como representante de Deus”, como ouvimos dizer. A única excepção que se admite é se não houver mesmo hipótese de arranjar padres, porque aí seria preferível vir um leigo do que acabar com a tradição, que “é muito bonita e era uma pena perder-se”. Nalgumas paróquias isso já se faz, mas o certo é que na Batalha fez-se a experiência há uns anos e não foi muito bem acolhida.
De facto, esta é uma tradição antiga e é difícil mudar o formato. Talvez só a imposição da necessidade, como aconteceu já nalgumas comunidades mais urbanas e populosas, venha a ditar a mudança. Por outro lado, as pessoas mais novas já não estão tão apegadas a esse ritual e muitos não dão grande importância à “visita do padre”.
Na Diocese, outros modelos estão em “teste”, como as bênçãos das famílias numa celebração comunitária. Alguns párocos vão introduzindo algumas adaptações, de ano para ano, na tentativa de encontrar a fórmula certa para fazer passar esta mensagem: o importante é que a bênção de Cristo ressuscitado chegue ao coração de cada um, ao seio de cada família, à vida de cada comunidade. E que esta alegria pascal, quer seja levada de casa em casa, por padres ou por leigos, quer seja celebrada numa festa em comunidade, constitua o centro da fé cristã. É essa alegria que o pároco quer comunicar a cada paroquiano, seja pessoalmente, seja por outros mensageiros.

O sentido da Visita Pascal

A Visita Pascal tem séculos de história na Igreja Ocidental, embora não seja uma prática generalizada em todas as comunidades. Em Portugal, tem assumido vários modelos, conforme os tempos e as regiões. No Norte, por exemplo, cuida-se de forma especial o cortejo que trilha as ruas das povoações, anunciado com pompa e sinos de mão, e alvo de verdadeiras competições entre quem apresenta mais e melhor ornamentadas cruzes. Pode dizer-se que é uma verdadeira festa local, onde não faltam os foguetes e o arraial.
Na nossa diocese, não é tão efusiva a manifestação, mas alguns elementos são mantidos com rigor, sobretudo nas zonas rurais. O pároco, com veste litúrgica, é acompanhado por leigos, que levam a caldeirinha da água benta, a pasta para recolha do “folar” e, nalguns casos, a cesta das amêndoas que o prior oferece.
Afinal, qual o sentido principal?
É comum a referência à visita pascal como “anúncio da alegria da ressurreição” e esse tem sido o sentido mais frequentemente apresentado nas nossas comunidades actuais. Mas um estudo apresentado em 2004 pelo padre Carlos Cabecinhas ao Conselho Presbiteral da Diocese aponta para a origem da ancestral bênção das casas, com raízes no próprio mandato de Cristo (Mt 10, 12) e nos hábitos dos primeiros cristãos. Neste trabalho, o director do Secretariado Diocesano da Pastoral Litúrgica cita documentos do século XIV e XV onde é já referido o hábito da “bênção anual das casas, pela Páscoa”, em Portugal. Assim, defende que será esse o primitivo e verdadeiro sentido da visita pascal, a bênção da casa, “lugar de habitação dos homens, símbolo da própria família que a habita”, e não esse anúncio de Cristo ressuscitado.
De facto, após o Vaticano II, o Ritual da Celebração das Bênçãos apresenta uma “bênção anual das famílias nas suas próprias casas”, acto reservado aos ministros ordenados e, sobretudo, aos párocos, como “um dos principais deveres da acção pastoral” e “ocasião privilegiada para exercer a sua missão pastoral e conhecer cada uma das famílias”. Mais recentemente, a Congregação do Culto Divino abriu a possibilidade de “nas grandes cidades” se fazer uma celebração para várias famílias ou de a visita ser feita pelo “pároco e seus colaboradores”, sem especificar se terão de ser padres.
Ainda assim, alguns teólogos defendem a evolução do sentido da visita, de acordo com a prática regional e com o modo como ela é vivida pelos fiéis. O que significa, nas nossas comunidades, uma ligação clara ao anúncio pascal e à comunicação da alegria que Cristo ressuscitado traz aos nossos lares.
Como se vê, tanto na forma, como no próprio sentido, a reflexão sobre o futuro da visita pascal está em aberto…
Luís Miguel Ferraz

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