>Poesia e pintura da Cremilde

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Arte feita a uma mão

Cremilde Monteiro, natural e residente na Golpilheira, não se deixa vencer pela deficiência que lhe rouba a força e lhe impede grande parte dos movimentos do corpo. Aprisionada nesses músculos adormecidos, deixa a mente voar nos versos que passa ao papel e, mais recentemente, para o computador. Mas nem só de palavras se constrói o seu universo. Também as cores e as formas se juntam, na sua frente, como espaços de demonstração da arte que lhe corre nas veias e salta para as telas. Apesar de só poder contar com uma das mãos para fazer os seus trabalhos, não desiste de se dedicar ao que mais lhe dá prazer: escrever e pintar.

Poesia
São versos simples, sem pretensões de qualquer género, mas espontâneos e sinceros. Neles exprime o que lhe vai na alma, as mágoas que a vida lhe impôs, mas também as alegrias que vive nas pequenas coisas belas que experimenta diariamente, o sorriso das crianças, o cantar da natureza, o amor da sua família e dos amigos. E encontra ainda espaço para motivar os que a rodeiam, dando aos jovens uma mensagem de esperança, de amor, de coragem para enfrentarem as dificuldades do dia-a-dia. Todos os temas são alvo do seu pensamento e sempre encontra nas palavras, rimadas e ritmadas, a forma de os expressar.
Escreve para si própria, para deixar registados esses momentos que enchem a sua vida. Mas gosta de revelar aos outros o seu sentimento. Sempre com um sorriso contagiante no rosto, fala do que faz e do que sente, em cada oportunidade que encontra num amigo disposto a partilhar dois dedos de conversa. Por isso, com o aparecimento do Jornal da Golpilheira, desde o primeiro momento manifestou a vontade de publicar aqui os seus poemas. E desde o primeiro momento lhe abrimos as portas deste jornal, que é também dela e de todos os que ajudam a encher de vida as suas páginas. A vida que corre, em ritmos diversos, de dança, de música, de corridas, mas também de pausa, de recolhimento e de arte, nesta nossa freguesia.
Na verdade, muitas são as pessoas que conheceram este seu dom de poeta através do jornal. E muitas lhe dão os parabéns pela coragem, pelas palavras que escreve e pela emoção que transmite. Mesmo do estrangeiro, alguns dos nossos emigrantes a têm felicitado. Isso é para ela motivo de alegria e impulso a continuar a escrever. Pedem-lhe alguns que publique um livro, um sonho que ela própria tem há vários anos, mas a oportunidade ainda não surgiu, até porque é “uma coisa cara” e a vida não tem sido fácil.

Pintura
Por sua própria iniciativa, decidiu experimentar os pincéis e misturar as tintas. Em casa, improvisou um atelier, onde faz a maior parte dos seus trabalhos. Desenha paisagens, naturezas mortas, sonhos idealizados, dando corpo às ideias que bailam dentro de si. Recebe inúmeros pedidos de amigos que conhecem a sua habilidade, alguns bens difíceis de executar. Mas nunca diz que não é capaz: “isso é complicado, mas vou tentar, hei-de conseguir!”
Também na “Oásis – Organização de Apoio e Solidariedade para a Integração Social”, uma instituição de Leiria onde costuma passar alguns dias da semana, aproveita para desenvolver este dom e adquirir mais alguns conhecimentos. Ali, algumas pessoas portadoras de deficiência, física ou mental, convivem e partilham experiências e saberes. Alguns vivem na associação, outros, como a Cremilde, passam por lá alguns dias ou semanas. Para ocuparem o tempo, dedicam-se a actividades como pintar, fazer tapetes de Arraiolos ou em ponto Esmirna, bordados diversos, carpintaria, encadernação, etc. Ela já fez um pouco de tudo, mas agora dedica-se, sobretudo à pintura de telas e também de louça decorativa, aperfeiçoando algumas técnicas com a professora de Artes da Oásis, Cláudia Nabo.
É a convite desta associação que a Cremilde vai fazer a sua primeira exposição, juntamente a outros colegas, utentes da Oásis. As suas telas vão, finalmente, sair de casa e do conhecimento de apenas alguns amigos e familiares, para se mostrarem ao grande público. É um desafio estimulante e, ao mesmo tempo, motivo de algum receio. “Nunca fiz uma exposição, tenho algum receio, mas estou muito feliz por mostrar a todos o meu trabalho”, confessa a artista. Nós, que já vimos alguns dos seus quadros, acreditamos que será uma bela mostra e que os visitantes irão, sem dúvida, apreciar.
A exposição será na delegação de Leiria do Instituto Português da Juventude, e estará patente ao público de 3 a 19 de Julho, podendo ser visitada das 09h00 às 20h00. Segundo a professora Cláudia, “será uma vasta exposição, com muitos trabalhos de interesse, realizados ao longo do ano lectivo, sendo de destacar, também na área da pintura, o João Miguel Mandsley, para além da Cremilde Monteiro. Será, sem dúvida, uma boa oportunidade para os golpilheirenses conhecerem esta artista da sua terra e se deixarem contagiar pela alegria e força de vontade que ela transmite, nesta arte feita a uma mão.
Luís Miguel Ferraz

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