>As danças lúdicas

>As danças lúdicas

>Continuamos a falar dos passos.
• Passo de Galope – Este passo é justamente o antecessor do passo de enlaçados e com o fim criado pelos rapazes, para até certo ponto não poderem “bailhar”, como tanto queriam, de par juntos, em virtude de os pais e mães das raparigas a isso não estarem dispostos a autorizar. É um passo de agarrados, em que os rapazes se agarram ao nível do braço e não antebraço, note-se. É muito usado em danças de roda, em que moços e moças rodam saltando.
Não se julgue contudo que, mesmo assim, foi este passo bem aceite pelos guardiães da moral e dos bons costumes. Contava a nossa avó que, no seu tempo de rapariga, havia na Calvaria um moço – que devia ser “melrinho de bico amarelo” – que terminou com a namorada que em tal “bailhe” iriam “bailhar” em passo de galope. Se bem o disse, melhor o fez. Mas como ao tempo era de bom-tom as mães acompanharem as filhas à dança, vai daí, a decidida mulher chega-se junto do par, faz “linha de sapateiro” e aparta o moço da rapariga. O rapaz, que devia ser versejador repentista, canta-lhe de imediato esta “alha”:
Santa Quitéria de Meca
Minha sogra está danada
Quis agora morder na filha
E a mim deu-me uma dentada
Este episódio, aqui retratado por este belo “mote”, mostra bem como a sociedade aldeã de outros tempos era ciosa da boa moral e bons costumes, na nossa comunidade.

• Passo de enlaçados – Suscitou grande controvérsia a entrada deste passo nas nossas danças aldeãs. Ao que certos etno-coreógrafos dizem, foi introduzido em Portugal aquando das invasões francesas, na primeira década do século XIX – 1807-1810. Embora já na última vintena do século XVIII (1780/1790) a valsa fosse conhecida como dança de salão, só chegou a Portugal cerca de um quarto de século, depois de largamente difundida na Europa. Será originária da Áustria, onde compositores como Strauss, pai e filho, compuseram as valsas mais belas. O pai viveu de 1804-1849 e o filho de 1825-1899, ficando até conhecido pelo “Rei das Valsas”.
Dança que obrigatoriamente tinha de ser “bailhada” em passo de enlaçados, até certo ponto, e pela sua novidade, foi bem aceite por algumas camadas aristocráticas da época, onde até então as danças do ponto de vista moral não iam além dos castos “passos de contacto”, ou de “passe, passe”. Era uma dança de elite, que passou paulatinamente dos serões aristocráticos da alta nobreza das capitais para as salas solarengas da baixa nobreza provinciana. Foram estes bailes frequentados por um ou outro oficial napoleónico, por mais estranho que pareça, e espalharam no meio rural e entre o povo esta bonita quão atraente dança.
Os pares mutuamente se puxavam e, por vezes, com atrevida notoriedade, o que levou muitos moralistas do tempo a uma acentuada repulsa. Não pela dança em si, julgamos, mas pela maneira como os pares se enlaçavam, que ainda nos dias de hoje, no meio popular aldeão, existem ditos bem comprovativos da sua não aceitação, por certas camadas mais conservadoras do povo, como: “convite à valsa”, “valsa emborcada”, “valsa da meia-noite”, “valsa de quatro joelhos”. Todas estas expressões significam relação sexual, cópula. E além disto, ainda havia certos moralistas que consideravam a dança da valsa, a verticalização de um acto puramente horizontal, logo uma cópula também.
Não se ficavam por aqui as maledicências, quanto a esta dança. Havia outras como: “Salsifré”, “Ferrumfunfum” ou “Forrobodó”. Por estes vocábulos, tipicamente populares, significam, nada mais, nada menos, que certos “bailhes” eram, e não poucos, consoante os locais onde fossem realizados – que não as casas dos tais moralistas – danças de gente reles, ordinária.
Claro que nem sempre assim seria, pois que a mocidade não era assim tão mal comportada, que descaradamente nos “bailhes” fosse além de certos actos menos respeitosos, para com a tradicional regra de condutas da comunidade. É que as moças e moços preocupavam-se mais em fazerem boa figura nas danças, do que estarem a pensar em lúbricos desejos. Um ou outro caso pontual não fazia regra. Havia até muito boa gente que, com o andar dos tempos, não se coibia de dançar a valsa, percebendo que usando da devida compostura nada havia de mal no bonito “passo de enlaçados”.
Alberto Gomes de Sousa

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