>Um golpilheirense em Marrocos

>Um golpilheirense em Marrocos

>Crónica de Rabat

Um CD pendurado em cada retrovisor, 7 passageiros num táxi de 5 lugares, uma brigada da Guarda Real em cada cruzamento, crianças a pedir esmola em cada semáforo: não há dúvidas, estou em Marrocos. Com cerca de 30 milhões de habitantes, esta jovem monarquia, antiga colónia francesa até 1956, é governada pelo rei Mohammed V.
Este país é uma amálgama de diversas influências. É um país africano, de religião muçulmana sunita, de língua oficial árabe e que serve de porta de comunicação entre a Europa e a África. Esta porta é para o bem e para o mal! Por ela, tanto passam os fortes investimentos económicos provenientes da Europa para o desenvolvimento deste território que necessita dessa ajuda, como também passam grandes quantidades de droga para o mercado europeu. É também por esta porta que muitos marroquinos e outros africanos tentam chegar clandestinamente ao nosso continente, procurando uma vida que apenas conhecem pela televisão e deixando para trás um país no qual já não acreditam. Mas muitas destas pessoas acabam por naufragar ou ser detidas pelas autoridades e forçadas a regressar, desta vez ainda em pior situação, porque tiveram de dar o pouco dinheiro que tinham para a travessia ilegal.
Apesar de se notar cada vez mais a ocidentalização do país, principalmente nos meios urbanos, a sociedade rural permanece muito fechada sobre si própria, tendo por única e exclusiva orientação a sua religião. Mulheres que nunca abandonam o véu, homens que podem casar até três vezes e crianças que vão à escola apenas quando o trabalho do campo está concluído, é este o cenário do Marrocos profundo, onde só agora os bens essenciais como a água potável estão a chegar.
É precisamente a água que está na origem da minha vinda para o Reino de Marrocos. Sendo licenciado em línguas na variante de Português e Francês, o meu objectivo era leccionar. Mas, como é do conhecimento geral, a área do ensino em Portugal está sobrelotada! No entanto, depois de ter concluído o estágio, procurei todas as saídas possíveis e, como “quem espera, sempre alcança”, a minha oportunidade surgiu para vir trabalhar para Marrocos numa empresa de construção civil portuguesa que está a expandir a sua actividade fora de Portugal. A empresa tem a seu cargo uma obra de instalação de condutas de água em zona rural. À partida, esta não é a minha área. Mas é aqui que a minha formação em línguas entra em cena. De facto, a língua francesa é a língua administrativa em Marrocos. Estou a trabalhar na sede da empresa, em Rabat, a capital, ajudando no trabalho administrativo que é todo feito em francês, e também assumo funções de intérprete quando necessário.
Rabat é uma cidade que tem os seus encantos! O palácio real faz-nos viajar pelas “mil e uma noites”; as mesquitas são verdadeiras obras de arte, símbolo da devoção de um povo; as pessoas são genuinamente acolhedoras e muito prestáveis: a população em geral é de uma simpatia extrema. E, depois, claro, temos a noite de Rabat! Há festa praticamente todas as noites, a pessoas abundam nas ruas, as esplanadas estão cheias de grupos de amigos que se juntam para beber um típico chá marroquino. Dentro das casas, prepara-se o jantar que é desfrutado por todos os membros da família, geralmente começando a refeição por um prato conjunto do qual todos comem à mão, não sem antes ter agradecido a Alá.
Mas depois dos primeiros tempos de descoberta, chega para mim esse sentimento tão português que é a saudade. Saudade de casa, da família, dos amigos, enfim, de Portugal. Escrevendo agora para o Jornal da minha Golpilheira natal, estou a enganar a saudade e a pensar já na minha próxima ida “à terra”. Ficarei por estas terras de desertos e oásis por mais alguns tempos, esperando pelo dia do regresso. “Inch’Alá”! (se Deus quiser).
Diogo Monteiro

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