>EDITORIAL | O Entrudo

>EDITORIAL | O Entrudo

>Em tempos que já lá vão, o Carnaval era o Entrudo. Aliás, em Portugal, podemos dizer que não havia Carnaval, essa importação recente das imagens globalizadas vindas do Brasil. O Entrudo, sim, era a manifestação das expurgações da alma social do Povo, dos dias sem regras, em que “nada parece mal”, como desculpa para criticar as hipocrisias dos vizinhos ou dos que representavam o poder, até mesmo da Igreja. As máscaras eram apenas o trapo que escondia o rosto, a voz disfarçada, o homem em roupas de mulher, até porque a mulher ficava em casa. E, garantido o anonimato, a brincadeira saía à rua, de porta em porta, a assustar os mais medrosos e, sobretudo, a picar a curiosidade dos moradores sobre a identidade de quem pedia vinho e tentava bebê-lo sem revelar a cara do dono. E até as crianças eram, aos poucos, embebidas desse espírito e dessa prática.

Em tempos que já lá vão, as tropelias do Entrudo eram também uma forma de socialização, uma espécie de “praxe”, não a caloiros, mas mestres, àqueles que mais se julgavam impunes. Ao mesmo tempo, prosseguia-se a finalidade de todas as tradições alimentadas pelo povo: motivar o encontro, o convívio, a vida comunitária. Ainda que de forma aparentemente contraditória, ocultar-se num traje andrajoso era uma forma de mútua identificação de um mesmo povo. Ainda que de face tapada, era a lei da confiança que imperava, ao ponto de se abrir a porta aos que chegavam e a todos se oferecer comida e bebida sobre a mesa da família. Ainda recordo, era eu garoto, as enchentes de mascarados em casa do meu tio João “Leiteiro” – mais visitado por ser vinhateiro do que leiteiro. Conhecidos e desconhecidos enchiam a casa e, no fim, lá mostravam quem eram, para merecerem o copo.

Em tempos que já lá vão. Hoje, os adultos não brincam. Ninguém sai da lareira. Ninguém ousa abrir a porta a estranhos. As crianças não se disfarçam, vestem-se de super-heróis da banda desenhada. Os homens vestem-se de normal. As mulheres despem-se de normal. Há excepções, perdidas no “Portugal profundo” ou perto de nós, mas não fazem já a regra. Não são já a tradição.

Sem querer voltar com o tempo atrás, sem saudosismos bacocos, devemos, no entanto, perguntar: o que de bom se perdeu e como podemos, na senda da modernidade, restaurá-lo? Essa pode ser uma reflexão de todos, até na Quaresma em que entrámos.

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