>Padre António Vieira – Um génio da cultura portuguesa

>Padre António Vieira – Um génio da cultura portuguesa

>Entre 6 de Fevereiro de 2008 e 6 de Fevereiro de 2009, decorreram diversas comemorações dos quatrocentos anos do nascimento do Padre António Vieira.
Ao longo da sua longa vida (1608-1697), repartida entre Portugal e o Brasil, com passagens por França, Holanda, Inglaterra e Itália, sempre este Jesuíta se assumiu como actor no grande teatro do mundo, desdobrando-se em desempenhos tão fascinantes pela diversidade como pela genialidade. Religioso, escritor, diplomata, pregador, teólogo, profeta… conheceu o triunfo e os aplausos, mas também o insucesso, a censura, o descrédito, a que quis e soube resistir. Nele impressiona uma imensa energia, manifestada na acção e no discurso, aliás indissociáveis.

Jovem no Brasil
Nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1608, na freguesia da Sé, em Lisboa.
Em 1614, o pai, Cristóvão Ravasco, foi destacado como funcionário para a Relação da Baía, para onde sai com a família. Na cidade e em todo o Brasil, tem fama o Colégio da Companhia de Jesus. É nele que Cristóvão Ravasco inscreve o filho. Não foi, de início, aluno brilhante. De compleição frágil, pálido, magro, grandes olhos, nariz fino, não se sente talhado para intensos esforços escolares. É, porém, de temperamento enérgico, tenaz. E, subitamente, por volta dos catorze anos, os jesuítas começam a descobrir-lhe a inteligência, a inesperada queda para escrever bem português, a facilidade com que domina o latim. Revela-se, igualmente, um crente fervoroso, jejua todos os dias, reza, comunga, mas não se excede.
Aos quinze anos, sente-se tocado pela vocação, quer ser jesuíta. Apesar da oposição do pai, a 5 de Maio de 1623, foge de casa e pede asilo aos padres da Companhia de Jesus. Redobra o seu interesse pelos estudos, passa a ser o melhor aluno em todas as disciplinas. Aos dezoito anos é nomeado professor de retórica no Colégio de Olinda.
Mais do que para a reflexão, sente-se tocado pelo desejo de acção: quer ser pregador, missionário, apóstolo, converter os incrédulos, combater o erro e trazer para a fé católica os índios do interior. Em princípios de 1624, eis António Vieira numa aldeia, em contacto directo com os índios, aprendendo-lhes as línguas, conhecendo-lhes os costumes, admirando o modo de vida, colocando-se a seu lado para os defender de todos os vilipêndios, torturas e humilhações.
Em Fevereiro de 1641, chega a notícia da Restauração da Independência por D. João IV e Vieira é enviado numa delegação pelo vice-rei do Brasil, D. Jorge de Mascarenhas.

Vinda para Portugal
Tem 33 anos quando regressa à terra natal. Era já um prestigiado pregador. Pouco a pouco, torna-se íntimo do rei, francamente cativado pela sua personalidade, e profere alguns sermões que lhe granjeiam em Lisboa a mesma fama que alcançara no Brasil.
O rei nomeia-o pregador régio e torna-se o seu homem de confiança. É então que giza para Portugal um plano de recuperação económica: era urgente o desenvolvimento do comércio, isentar de impostos os bens móveis dos comerciantes, fundar um banco e duas companhias comerciais, abrir o comércio às nações neutrais, agraciar os comerciantes com títulos de nobreza, entre outras medidas, avançadas para o tempo! Mas a principal proposta, que lhe vai valer ódios, era a de se abolirem as distinções entre cristãos velhos e cristãos novos e de atraírem a Portugal os capitais dos judeus fugidos do país. Para tal, teria de se reformar a Inquisição. Mas o seu plano económico teve de ser minimizado: apenas se constituiu a Companhia de Comércio do Brasil.

V Império
Estudando profundamente as Escrituras e todos os Santos que falam do imperador que Jesus prometera à Igreja, o jesuíta está firmemente convencido de que o V Império só pode ser português (os anteriores tinham sido o dos assírios, o dos persas, o dos gregos e o dos romanos). O Quinto Império seria de ordem temporal e espiritual. Em ambos os campos, Portugal seria o guia para que se extirpassem as seitas infiéis, se reformasse a cristandade, se estabelecesse a paz em todo o mundo, através de um Sumo Pontífice santíssimo.
Esta construção ideal de António Vieira, prodígio imaginativo e delirante, começaria a tornar-se realidade se o herdeiro português casasse com a herdeira do trono castelhano.

Entre o Brasil e Portugal
Mas entretanto perdera a estima do rei, fracassara em algumas das suas iniciativas políticas, aumentara o número de inimigos, tanto na Igreja como na Corte, e a Companhia de Jesus ordena-lhe que regresse.
Ao chegar ao Brasil, dá conta do caos moral das gentes de Maranhão, sobretudo dos brancos, apenas preocupados com enriquecimento sem regras, dissolutos, impiedosos. Logo nos primeiros sermões, ataca violentamente a licenciosidade dos costumes e o odioso regime da escravatura que denuncia ao rei. Consegue apenas a animosidade e o ódio das autoridades oficiais e colonos.
Vem a Portugal pedir ao rei o fim do descalabro moral e social do Brasil. Este acolhe-o com carinho, mas está muito doente, e na Corte odeiam-no pelos sermões duríssimos contra os poderosos desonestos e a favor do povo.
Ainda assim, consegue o decreto real de jurisdição jesuíta sobre os índios do Brasil. Volta lá e não se cala contra a escravatura, pelo que os ódios atingem o auge. Em 1661, os colonos do Maranhão atacam os jesuítas e expulsam-nos para Lisboa. Chega pobre e doente e acaba por ser preso pela Inquisição por defender os cristãos novos, os judeus e calvinistas, e por propugnar estranhas e heréticas teorias sobre um tal V Império.
A 23 de Dezembro de 1667, o tribunal do Santo Ofício dita a sentença condenatória: “é privado para sempre de voz activa e passiva e do poder de pregar, e recluso no Colégio ou Casa de sua religião, que o Santo Ofício lhe ordenar, e de onde, sem ordem sua, não sairá”.
A 12 de Junho de 1668, Vieira é libertado. Está, todavia, proibido de nos seus sermões tratar de assuntos relacionados com cristãos novos, profecias, V Império, Inquisição. Os superiores da sua Ordem enviam-no a Roma, para promover a canonização de 40 jesuítas presos nas Canárias e martirizados pelos protestantes em 1570. Mas Vieira vai, também, por outro motivo: quer obter a anulação total da sentença condenatória do Santo Ofício. Foi humilhado e injustiçado. Está de novo em luta.
Em Setembro de 1669, embarca para Roma. A personalidade de Vieira, a sua energia, a sua exuberância rapidamente conquistam a cidade italiana. Por toda a parte é recebido com admiração, carinho e respeito. Até que o Papa, num Breve, isenta o padre António Vieira “perpetuamente da jurisdição inquisitorial”. Poderia pregar sobre o que quisesse e apenas estava sujeito às regras da sua Ordem. Mas a sua saúde que, desde a meninice, é frágil, agrava-se. Com permanentes acessos de febre, olhado indiferentemente pela corte do regente D. Pedro, Vieira parte em busca de melhor clima, o do Brasil.
O Papa Inocêncio XI revoga o Breve do seu antecessor. Em Portugal, a Inquisição levanta contra ele toda a espécie de calúnias. O velho jesuíta pode cair, de novo, na sua alçada. No pátio da Universidade de Coimbra, queimam-no em efígie com sanha insensata. Aos 80 anos, doente, enfraquecido pelas constantes sangrias a que é submetido, o Geral da Companhia nomeia-o Visitador Geral do Brasil.
A 18 de Julho daquele ano, pela uma da madrugada, morre o que foi e é o maior prosador da língua portuguesa, aquele que, um dia, dissera, desalentado: “não me temo de Castela, temo-me desta canalha”.

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