>Crónica das Festas da Batalha

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>“Muralha de silêncio num País sem memória”

O feriado que é municipal, mas deveria ser nacional. A memória que enfraquece e as palavras de quem teima em perpetuá-la. A ausência das pessoas e as enchentes de gente. Da lição histórica ao desporto, da sessão solene ao beberete de emigrantes, das artes ao espectáculo, os momentos e as contradições das festas de Agosto, que são da Batalha, mas deveriam ser dos batalhenses, ou
melhor, dos portugueses.
 
Cerimónia
Dia 14 de Agosto, 12h00, capela do fundador do Mosteiro de Santa Maria da Vitória. Começam oficialmente as Festas da Batalha 2009. Sem contar os turistas que vão deambulando pelo espaço, cerca de duas dezenas de pessoas estão presentes para a homenagem a D. João I. Acompanhando o toque da parada militar constituída por uma dezena de soldados, os representantes de algumas entidades públicas, como o Governo Civil de Leiria, a Câmara Municipal da Batalha, a Fundação Batalha de Aljubarrota e o próprio Mosteiro, depositam coroas de flores junto ao túmulo real.
Toma a palavra o historiador Saul Gomes. Num discurso breve e acutilante, sintetiza o simbolismo deste dia e daquele ambiente. Os portugueses “a banhos” de hoje, não são já os mesmos que lutaram pela sua pátria em 1385, nem os que navegaram à descoberta do mundo. Este, que deveria ser um “acto de cidadania e de afirmação da identidade nacional”, não passa de uma “envergonhada cerimónia”, cuja comemoração passa ao lado das entidades nacionais, das agendas dos meios de comunicação social e dos portugueses em geral.
“Como é possível chegarmos a este ponto?”, pergunta o ilustre académico, ao constatar que “nas comemoração após Abril de 1974, o Mosteiro da Batalha foi sempre esquecido no seu valor e simbolismo, excepto em pequenas notas de rodapé”. A “forte consciência nacional que levou ao tudo ou nada em 1385” já não se vislumbra nos nossos dias, quando a ideia de Pátria deveria ainda ser a mesma, assente nos ideais de “lealdade” e “fazer o bem” que moveram os heróis de outrora e que “ecoam mil vezes” nos pormenores esculpidos neste Mosteiro.
“Muralha de silêncio num País sem memória” foi a bela expressão de uma triste realidade com que o orador caracterizou este monumento, “onde desde há vários séculos se evoca Portugal, e onde nos sentimos mais portugueses e orgulhosos de o sermos”.
O discurso é digno de ser lido na sua íntegra e temos já a promessa do seu envio pelo autor, para publicação no próximo mês.

Sessão solene
Da parte da tarde, após a inauguração da exposição “Ordens Honoríficas Portuguesas” (ver ao fundo), realizou-se a sessão solene do feriado municipal, que contou com a animação musical de Francisco Chirife, pianista argentino residente na Batalha. Cerca de 60 pessoas presentes, muitas delas por amizade ao escritor Aníbal Nobre, cuja obra “Lendas e histórias da nossa História” foi aí apresentada, outras porque iriam receber as medalhas de mérito ou de bons serviços do Município.
O livro de Aníbal Nobre, editado pela autarquia, reúne um conjunto de textos premiados em concursos literários, onde as personagens principais estão profundamente ligadas à Batalha. “Trata-se de uma mistura da História com a imaginação, em lendas que brotam da minha admiração e do consumo compulsivo por tudo o que diz respeito à Dinastia de Avis”, referiu o autor, natural de Olhão, mas que se considera por essa via muito ligado à nossa história local. “Na publicação que agora editamos, encontram-se retratados factos, histórias e lendas que de uma forma interessante, pedagógica e bastante actual, envolvem D. João I, D. Duarte, D. Afonso V, D. João II (todos a repousar no Mosteiro de Santa Maria da Vitória) e também o recentemente canonizado pela Igreja Católica, São Nuno de Santa Maria. (…) [A todos] são reconhecidas enormes virtudes, grande capacidade de liderança e uma estreita ligação à Batalha, à sua história e ao seu património”, refere António Lucas no prefácio.
Seguiu-se a atribuição de medalhas de assiduidade e bons serviços aos funcionários da autarquia já aposentados e também das medalhas de mérito municipal. Neste campo, coube a especial distinção com a Medalha de Ouro de Mérito Municipal ao padre Virgílio Antunes, natural de S. Mamede, pelo distinto currículo eclesiástico, nomeadamente pela nomeação como Reitor do Santuário de Fátima, em Setembro de 2008.
Foi ainda atribuída a medalha de prata de mérito cultural e desportivo ao nadador Nuno Maximiano, ao agente cultural Joaquim Lima da Silva, ao Batalha Andebol Clube, à Associação Desportiva da Batalha, à Associação Recreativa Amarense, ao Rancho Folclórico do Penedo, à Associação Cultural Sons do Lena, ao rancho “As Lavadeiras do Vale do Lena”, este último do nosso Centro Recreativo da Golpilheira.
No discurso de encerramento, o presidente da autarquia, António Lucas, salientou a importância deste acto solene de reconhecimento do talento e do trabalho das pessoas e instituições do concelho. E não deixou de lembrar a linha de acção que o município está a seguir, com destaque para a área social, cujos projectos “são os que menos se vêem, onde menos verbas são dispendidas, mas aqueles que nos dão maior sensação do dever cumprido”.

Multidões
Após a sessão, realizou-se no pavilhão multiusos da vila mais um Encontro Anual de Emigrantes do Concelho da Batalha. À volta de um banquete oferecido pela autarquia, em sinal do bom acolhimento aos batalhenses que andam pelos vários países da diáspora, cerca de duas centenas de pessoas conviveram alegremente, com animação do grupo “Cancioneiro da Região da Magueixa”. Enquanto isso, abria a 2.ª edição da Mostra das Actividades Económicas, no largo Cónego Simões Inácio, com a presença de algumas empresas, sobretudo dos sectores automóvel, de maquinarias e agrícola.
O cair da noite trouxe mais algumas dezenas de pessoas junto à estátua equestre do Santo Condestável, onde a apresentação multimédia “D. Nuno Revisitado”, dirigida pelo actor batalhense Tobias Monteiro, lembrou os principais momentos da vida do homem, do herói e do novo Santo português. A homenagem, baseada em projecção de imagens, jogos de luz e interacção do actor com o público, contou ainda com as intervenções filmadas de José Travaços Santos, historial local, e Alexandre Patrício Gouveia, presidente da Fundação Batalha de Aljubarrota.
Mas a verdadeira festa de multidões começaria apenas depois deste momento, já no recinto junto às Capelas Imperfeitas, onde o palco principal iria receber a batalhense Suzana e o famoso Paulo Gonzo. Aqui, as dezenas passaram a milhares, dando um sinal do acerto da organização quanto aos artistas convidados para encher o espaço. Se neste primeiro dia estava “composto”, no último serão iria estar “à pinha”, com o grupo “Xutos e Pontapés” a trazer à Batalha, sem qualquer dúvida, uma das maiores enchentes dos últimos anos.
Pelo meio, o rancho Rosas do Lena organizou a 24.ª Gala Internacional de Folclore, também ela catalizadora de muitas centenas de visitantes.
O grupo anfitrião abriu com o espectáculo etnográfico “A Batalha a Cantar e a Dançar, da Quaresma a Santo António”, uma interessante mostra de alguns usos e costumes tradicionais da Alta Estremadura, seguindo a actuação dos convidados: Grupo de Capoeira Ginga Camará (Brasil), Grupo “Os Ceifeiros da Bemposta” (Estremadura), Grupo IZMIR (Turquia), Grupo Dr. Gonçalo Sampaio (Minho) e Grupo Pääsuke (Estónia).
Foi mais excelente mostra etnográfica, rica e diversificada nos ritmos e cores próprios de cada cultura, não só regional como internacional.

Desporto
É já habitual a inclusão do desporto e lazer no programa destas festas. Assim, no dia 15, realizou-se na zona desportiva da vila mais uma prova de atletismo “Batalha Jovem” (benjamins, infantis e iniciados) e um Grande Prémio de Atletismo “Mestre de Avis – São Nuno de Santa Maria”, com percurso entre S. Jorge e a Batalha. Enquanto isso, decorria um passeio pedestre pelas margens do Lena para os apreciadores das caminhadas.
Mas a novidade deste ano foi a realização, no campo sintético, do I Torneio de Futebol Inter-Freguesias “São Nuno de Santa Maria”. Cada freguesia apresentou a sua selecção, constituída por cerca de duas dezenas de atletas veteranos, para um evento que pretendeu, acima de tudo motivar o convívio e o são desportivismo entre todos.
Dado que os prémios eram o menos importante, o torneio disputou-se por eliminatórias directas, sem chegar a haver confronto entre as quatro participantes. Assim, no primeiro jogo, estiveram frente a frente a Golpilheira e a Batalha, que a nossa equipa perdeu por 3-1. No jogo entre derrotados da primeira-mão, a Golpilheira acabou por vencer o Reguengo do Fetal por 2-0, conquistando assim o 3º lugar. No jogo da final, S. Mamede sagrou-se campeã, frente à Batalha.
Ainda no decorrer das festas, houve espaço para um torneio aberto de xadrez, para diversos jogos tradicionais, e até para uma tarde de caricaturas realizadas por José Oliveira, conhecido autor de “Os Corvos”.

Luís Miguel Ferraz

Na galeria Mouzinho de Albuquerque até 13 de Setembro
Exposição “Ordens Honoríficas Portuguesas”
Foi inaugurada, no dia 14 de Agosto, na galeria Mouzinho de Albuquerque, a exposição “Ordens Honoríficas Portuguesas”, do Museu da Presidência da República. A mostra, que reúne todas as ordens honoríficas existentes em Portugal e explica o significado de cada uma dessas condecorações, poderá ser visitada até 13 de Setembro.
As Ordens Honoríficas Portuguesas são agrupadas conforme a sua origem ou natureza em Antigas Ordens Militares, Ordens Nacionais e Ordens de Mérito Civil. A sua atribuição conta com uma longa tradição, cabendo ao Chefe de Estado superintender todo o processo. O sistema sofreu uma natural evolução ao longo dos séculos, tendo algumas das actuais ordens origem na Idade Média – as antigas ordens monástico-militares de Cristo, de Avis e de Santiago da Espada. Até à sua extinção, em 1834, foram verdadeiras ordens religiosas, criadas nos séculos XII a XIV, com aprovação da Santa Sé e protecção régia, visando a «Reconquista», para a qual muito contribuíram. Inspiraram-se nas ordens militares criadas no Reino de Jerusalém no século XI para defesa da Terra Santa – a Ordem do Hospital de S. João de Jerusalém e a Ordem dos Templários.
Na mesma inspiração surgiram, no século XIV, as ordens de cavalaria, tendo por fim recompensar serviços ou a fidelidade ao Soberano, tendo a natureza de confrarias ou corporações nobiliárquicas de natureza secular mas confessionais e de inspiração cristã.
Sucederam-se no tempo, após a Revolução Francesa, as modernas ordens de mérito inspiradas no princípio da igualdade dos cidadãos perante a lei e totalmente laicas. O seu modelo foi a Legião de Honra, criada em 1802, pelo Primeiro-Cônsul Napoleão Bonaparte. Possuindo vários graus, visavam recompensar o mérito civil ou militar.
Com o fim da «Reconquista» no território português, as ordens militares sofreram igualmente uma evolução que passou pelo relaxamento dos primitivos votos de pobreza e castidade e pela perda da sua autonomia no século XVI, com a entrega da sua administração à Coroa. O processo culminaria no século XIX, com a extinção das ordens religiosas, que conduziu à sua transformação em ordens de mérito assentes no mérito individual, laicas e puramente honoríficas.
Em 1910, logo após Revolução Republicana, as ordens vigentes sob o deposto regime monárquico foram extintas, tendo no entanto, em 1918, em plena Guerra Mundial, sido restabelecidas como ordens honoríficas ou de mérito, sendo a função de Grão-Mestre atribuída ao Presidente da República.

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