Como é, Manel, ‘tá tudo?

Foi assim que te recebi aqui no escritório de casa na quarta-feira. Era assim, de forma simples, que te recebia, enquanto entravas pela sacada, que para ti não era preciso abrir a porta. Eras cá da casa. Tinhas sempre o cuidado de avisar que vinhas, metias a mão por dentro do portão da rua, abrias e eu recebia-te à sacada:

– “Como é, Manel, ‘tá tudo?”

Umas vezes estava tudo bem, outras vezes estava tudo a desmoronar-se. Por norma, era o desabafo:

– “Vai-se indo, um dia de cada vez”.

Nos dias mais cinzentos, contavas-me as tuas histórias, problemas, experiências de dor e desespero profundo. Choravas.

– “Sei o que tenho. O que me dói mais é não conseguir reagir. Quero levantar-me e o corpo não obedece. Quero fazer isto ou aquilo e o cérebro não consegue dar a ordem.”

Eu tentava não chorar contigo, dar-te força, fazer-te acreditar que com a ajuda da família e dos amigos (e de Deus, dizia-te às vezes) irias conseguir. No fim, ficávamos sempre a concordar numa luzinha de esperança:

– “Um dia pode ser que isto vá ao sítio!”

Estavas semanas sem aparecer. Só por telefone íamos partilhando essas conversas, até que, no regresso:

– “Como é, Manel, ‘tá tudo?”

Sorrias de alívio:

– “Parece que sim, vamos a ver se é desta…”

Mas não era sempre assim. Havia aqueles dias de gargalhadas, de acção em todas as frentes, de lutas e irritações, sobretudo quando vias gente parada no teu caminho e no caminho da tua colectividade, da tua aldeia, desta gente que amavas. Também isso te fazia sofrer… sentir que davas tudo e que não havia do outro lado uma resposta de compreensão ou de ajuda. Também aí tentávamos por água na fervura, ver possibilidades de crescimento e de conciliação:

– “Um dia pode ser que isto vá ao sítio!”

Eram sempre emoções fortes contigo, isso é verdade. Mas, fosse qual fosse o espírito do momento, entravas pela sacada adentro:

– “Então, vamos ao gajo?”.

O “gajo” era o Jornal. O “nosso” Jornal. Amavas este nosso Jornal, não era? Isto para ti não era um jornal, nunca foi. Era um acto de amor pela tua terra e a tua gente. Querias enchê-lo de letras, de fotos, de pontos de exclamação como as tuas emoções fortes. Gostavas mais daqueles textos de festa, dos campeões da bola, dos convívios de amigos, da vida do “teu” Centro Recreativo, das histórias das pessoas que vias a fazerem coisas pela “tua” terra. Adoravas escrever que a Golpilheira era grande, enorme, do tamanho do teu coração. Mas, se fosse preciso, também escrevias aqueles artigos de crítica, de desabafo, de “bota abaixo”, como tu dizias. E sempre pelo mesmo motivo, pelo mesmo amor. Cá estava eu para pôr água na fervura, mas nem sempre era fácil… pois não, Manel?

Acabávamos sempre por concordar e nunca nos chateámos. Tu cedias umas vezes, eu cedia outras, a coisa fazia-se. E corria tão bem, Manel!

No meio destas histórias, fomos falando da fé e de Deus, como ajuda única e certa. Não consegui eu ter fé suficiente para te levar por aí. As minhas palavras não te soaram, provavelmente, muito convencidas. Desculpa, Manel, não ter conseguido dar-te mais disto em que acredito. Mas houve quem conseguisse. Deus colocou no teu caminho outro amigo que soube mostrar-te como era isso de viver de fé, de acreditar sem receios nem meias medidas. O milagre aconteceu. Estava a acontecer. Estavas melhor do que nunca. Sentias-te bem, equilibrado, pacificado. Estavas bem contigo e com os outros, sentias, de novo, o gosto de viver.

Na quarta-feira, quando vieste aqui para fecharmos juntos mais uma edição do jornal,

– “Como é, Manel, ‘tá tudo?”,

disseste com a convicção das vezes mais recentes:

– “Tudo na maior!”

Depois, como quase sempre, até quando o ânimo estava mais abatido,

– “Então, vamos ao gajo?”,

atiraste o caderno grosso para cima da mesa, cheio de apontamentos, folhas soltas, papelinhos de várias cores… e começaste a desfilar temas, textos, artigos, a lista do que querias. Entregaste os dois ou três cartões cheios de fotos para eu “sacar”, menos fotos agora, que isto anda parado por causa da Covid. Mas não paraste tu e entrevistaste meio mundo… era tanta coisa, Manel! Disse-te que tínhamos de cortar páginas, que as finanças do Jornal estavam em baixo, tínhamos de reduzir custos. Tu disseste que entendias, que aceitavas o que eu decidisse, mas

– “Isto devia ser agora, isto tem de ser agora, isto já devia ter sido antes…”

Aceitei os teus pedidos, a tua dedicação merecia, tu merecias isso. Tinha programado 32 páginas, ficou com 36. É um Jornal quase todo teu. Das tuas letras, fotos e pontos de exclamação como as tuas emoções fortes. De preocupação com o futuro da tua colectividade, sobretudo. Mas também com um testemunho de vida que estavas a partilhar com todos os leitores, na tentativa de os ajudar em situações semelhantes.

Vai ficar a meio o teu testemunho…

Fechaste o Jornal comigo na quarta-feira, ficou pronta a paginação na quinta. Fechaste a vida na sexta, já não vais vê-lo aqui. Mas já estás a vê-lo primeiro do que todos e podes dizer como costumas:

“- Ficou um espectáculo o nosso Jornal!”

Ainda sem saber como partiste, sei que partiste. Acredito que estarás agora onde todos os segredos são revelados e os teus sofrimentos acabaram de vez. Agora sim, dirás sem dúvidas:

– “Tudo na maior!”

O teu coração grande, sempre à beira de explodir de emoções fortes, sincero, honesto, bom, encontrou o Coração Maior. Tinhas encontrado um vislumbre de resposta, aí tens a tua resposta clara e límpida, na maior das emoções, o Amor.

Entretanto, deixaste-me sozinho com o “gajo”. Isto não vai ser igual, Manel. Porra, Manel, não era ainda. Mas ambos sabemos que isto do “ainda” é muito relativo. É tudo quando tem de ser, não é? Isto não vai ser igual. Mas tentarei sozinho não deixar o nosso “gajo” partir também. Não há outro Manel, disso tenho a certeza. Nem eu te chegava aos calcanhares de amor por isto. Sabes bem o incentivo que me deste tantas vezes, quando ponderava fechar a página. Pode ser que surjam outros a remediar essa falta que me vais fazer… Seja o que Deus quiser. Tudo será quando tiver de ser, certo?

Neste momento, não tenho muito mais a dizer-te. Não consigo evitar uma lágrima de tristeza e comoção pela tua ausência terrena. Normal. Já chorámos juntos, né? Mas sei que estás e estarás sempre por aqui. Talvez daí possas continuar a ajudar-nos a todos, aos teus familiares e amigos, à tua terra, à tua colectividade, ao teu jornal… faz o que puderes por nós.

Neste momento, ficará retida a pergunta que acredito poder fazer-te, de novo, um dia destes:

– “Como é, Manel, ‘tá tudo?”

Luís Miguel Ferraz

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