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(Transcrição de artigos publicados sobre a Golpilheira em jornais do passado)

O Topónimo Golpilheira

Em boa verdade, era o autor de Topónimos e Gentílicos que deveria dizer a primeira palavra, já que os seus conhecimentos de toponímia o colocam em posição de vantagem para responder cabalmente à chamada do Director de «O Mensageiro». Xavier Fernandes que nos perdoe, se indevidamente nos antecipamos… É que não queremos que a nossa falta de colaboração, ultimamente verificada por motivos de força maior, se avolume, com mais este silêncio.
Tem razão o Sr. P.e Lacerda, quanto à relação existente entre o latim vulpecula, raposinha (de vulpes, raposa) e o topónimo Golpilheira, do concelho da Batalha. Uma hipotética proveniência de Collipolaris, como pretende o seu opositor, não resiste à mais ligeira crítica, pois não se vê que de tal étimo pudesse ter resultado Golpilhar, quanto mais Golpilheira.
Não temos notícia da palavra Collipolaris; conhecemos, sim, um adjectivo Collippomensis, derivado da palavra Collippo, nome de uma antiga cidade situada na região de S. Sebastião do Freixo. Um tal étimo, mesmo que existisse, nunca poderia dar Golpilhar, pela razão fonética que obriga a pronunciar Collippo, com i longo, donde Colipo e não Cólipo. Só de Colipo, com i breve, poderia advir Collipolaris, também com i breve, o tal étimo imaginário…
Posta de parte esta condenada origem, sigamos agora pelo caminho de uma boa explicação fonética.
Golpilheira, como Golpilhares, Raposeira, Zorral, Lobeira, etc., pertence ao número dos topónimos provindos da fauna, algum dia existente de norte a sul do País, já que é possível encontrá-los nos distritos de Viana, Braga, Porto, Vila Real, Aveiro, Viseu, Castelo Branco, Coimbra, Portalegre, Leiria, Santarém, Lisboa, Beja e Faro.
Golpilheira proveio sem dúvida do latim vulpecula, raposinha, possivelmente através da forma derivada vulpecularia (cf. Maceira, de Maçanaria), o que leva a crer que, no local assim designado, existisse abundância de raposas.
Esclarece o Dr. José Joaquim Nunes no seu Compêndio de Gramática Histórica da Língua Portuguesa (p. 94, da 3.ª edição) que «a maneira como os germanos pronunciavam o seu w inicial, isto é, como g, parece ter influído, e em época bastante antiga, na transformação que se operou no v – das palavras : goraz (arc.) golpelha e gastar, de vorace, vulpec(u)la e vastare».
O grupo cl intervocálico reduziu-se normalmente a lh (ef. apic(u)la, abelha).
Em Portugal, a raposa, que é conhecida também pelo nome de zorra, aparece, na época arcaica, frequentemente designada por golpelha, do latim vulpecula, forma que sobrevive ainda hoje nos Distritos do Porto, Vila Real, Coimbra e Leiria, nos topónimos Golpilhal, Golpilhares, Golpilharinhos e Golpilheira.
Sem termos a pretensão de haver esgotado a matéria toponímica respeitante a vulpecula, cremos que fica suficientemente demonstrado que Golpilheira nada tem que ver com Collipolaris, mas sim com a forma arcaica Golpelha, raposinha, raposa, recordada no adágio que diz que «o lobo e a golpelha fizeram uma conselha».

Alcuino [historiador Dr. Luciano Justo Ramos, de Mira de Aire]
Em O Mensageiro de 04-08-1966

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