Reguengo dá exemplo de conservação de arte sacra: “Nova” imagem da Senhora do Fetal

Reguengo dá exemplo de conservação de arte sacra: “Nova” imagem da Senhora do Fetal

Tal como noticiámos há alguns meses, a paróquia do Reguengo do Fetal decidiu enviar para restauro a multissecular imagem de Nossa Senhora que se venera no seu santuário, dado o grande desgaste que apresentava desde que recebeu a última intervenção, por volta do longínquo ano de 1680.
A preciosa obra de arte sacra foi enviada para um gabinete da especialidade e os trabalhos foram executados por pessoas tecnicamente preparadas para o efeito, o que constitui um verdadeiro exemplo de boas-práticas neste domínio, como sublinhou Marco Daniel Duarte, director do Departamento do Património Cultural da Diocese de Leiria-Fátima, por ocasião da apresentação pública da peça após o restauro.

Ver fotos em 2022-06-25 Imagem restaurada da Senhora do Fetal

A sessão, presidida pelo pároco, padre Armindo Ferreira, decorreu na própria igreja do Santuário de Nossa Senhora do Fetal, no passado dia 25 de Junho, com cerca de meia centena de pessoas a querem saber mais sobre a sua história e o tratamento que acabara de receber.
António Neto, um dos paroquianos que acompanhou os trabalhos, lembrou alguns pormenores do percurso deste santuário e da sua imagem, em que a história e a lenda se cruzam numa narrativa carregada de sinais de fé, devoção e tradição que o povo do Reguengo tem sabido preservar ao longo de séculos. Para o caso, servia, sobretudo, a informação de que a última vez que esta imagem foi alvo de uma intervenção de restauro foi nos anos 80 do século XVII, “trabalho realizado por um religioso da Arrábida, a mando de D. Frei José de Lencastre, bispo de Leiria entre 1681 e 1694.
Mais pormenores dessa história, enquadrada no contexto global do culto mariano desde a Igreja primitiva, foram fornecidos por Marco Daniel Duarte, doutorado em História da Arte e que integrou a Comissão Científica destes trabalhos. Mostrando exemplos da figuração de Maria ao longo dos séculos, chegou a esta “imagem da ‘Virgem em Majestade’, sentada num trono e com o Menino no colo, ela mesma a servir-Lhe de trono”, um tipo de representação iniciada a meados do século XIV e que neste caso, “estando quase a olharem-se o Menino e a Mãe”, a aproxima das “marcas da ternura típicas da ‘devotio moderna’ que vigorou de finais desse século até ao século XVI. Por comparação com outras obras e estudos, defendeu a tese de que o seu autor será João Afonso, ou algum discípulo da sua oficina de Coimbra, feita em meados do século XV.
Na equipa técnica integrou-se Vanessa Henriques Antunes, investigadora do ARTIS – Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que está a estudar cientificamente os materiais e a policromia da imagem, após a “análise estratigráfica por espectroscopia Raman”. Uma espécie de raio X, que a leva a corroborar a hipótese de a autoria ser de João Afonso, até pelo tipo de calcário “macio e brando” por ele comprovadamente usado.
A última palavra foi das duas técnicas que conduziram a intervenção, Milene Santos e Daniela Morgadinho, mestres em Conservação e Restauro na empresa “Salvaguardar Património”, para explicar em detalhe as diversas etapas deste delicado processo, desde a limpeza das impurezas dos anos, como cera, fumo e poeiras, até ao preenchimento de falhas na escultura e à descoberta das duas camadas de tinta, a original do século XV e a repintura efectuada no século XVII. “A opção foi a de não se remover nada, porque tudo é história”, pelo que foi feito o retoque por micro-pigmentação, que permite a conservação visível de todos esses elementos. É um processo minucioso e moroso, mas o resultado à vista de todos pôde comprovar ser o indicado para uma imagem que, além de obra de arte, tem de cumprir a função de objecto de culto e ter a estabilidade suficiente para estar num altar à veneração do povo.
Restava um conjunto de conselhos sobre os cuidados a ter de ora em diante no seu manuseamento, limpeza e conservação, para que assim perdure sem grandes alterações durantes mais uns séculos…
Ao nosso Jornal, a Comissão revelou que este restauro custou cerca de 5 mil euros à paróquia, tendo havido comparticipação de donativos particulares e do programa de apoio ao associativismo do Município da Batalha.

510 anos de paróquia e candidatura a património nacional

Esta sessão cultural integrou-se num programa festivo mais vasto que por aqueles dias serviu para assinalar os 510 anos da fundação da paróquia (e freguesia) do Reguengo do Fetal.
Na ocasião, António Neto aproveitou para partilhar alguns dados sobre essa longa história, sobretudo à volta deste santuário e das tradições culturais e religiosas com ele relacionadas. Uma das mais carismáticas é a procissão nocturna (“procissão dos caracóis”) feita nos dois sábados da semana festiva de Nossa Senhora do Fetal, o último dos quais sempre o primeiro sábado de Outubro, entre o santuário e a igreja matriz.
Dada a sua importância para a comunidade e para o ritmo religioso, cultural e social da freguesia, a paróquia, a junta de freguesia local e o Município da Batalha estão a preparar a candidatura desta procissão a Património Imaterial Nacional. Para tal, estão a solicitar a colaboração de todos no envio de contributos (livros, fotografias, vídeos, jornais, poemas, prosas, registos orais, etc.) para formalizar e justificar esta candidatura.
Luís Miguel Ferraz

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