>Natal na Missão da Donga – Angola

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No dia 20 de Dezembro partimos rumo à missão da Donga, para passarmos o Natal junto das pessoas pelas quais viemos. Há mais de 20 anos que aqui não era celebrado o Natal.
Saímos eram 10h00 e chegámos às 22h00. No tempo seco, fazíamos esta viagem em cinco horas. Foi deveras cansativa. A picada está cada vez pior e, progressivamente, ficou praticamente intransitável uma estrada por onde já passaram carros ligeiros. Cavar, empurrar, voltar a cavar, várias tentativas, lama e mais lama, ravinas, valas enormes no meio da picada, pedras, muita água e mais uma vez a pá, a catana, a picareta, a barramina, até a colher de pedreiro, tudo serviu para ajudar o carro a seguir o seu caminho. Chegámos!
No dia 21 de Dezembro, ainda com pouca gente, iniciámos as nossas actividades. Ao longo dos dias, o número de pessoas foi aumentando consideravelmente. Os padres Vítor e David orientaram o retiro dos catequistas, deram formação catequética às pessoas sobre o Natal, atenderam de confissão e presidiram à Eucaristia. A Vera dedicou-se mais ao atendimento na cantina da missão, proporcionando àquele povo o acesso a material escolar e medicamentos, quase inexistentes por estas bandas. Eu e a Sónia estivemos com as crianças, desenvolvendo várias actividades alusivas ao Natal, das quais, inclusivamente, nasceu um presépio. Ainda trabalhei um pouquinho com as mamãs e dei assistência realizando vários curativos simples.
O trabalho com as crianças não é de todo fácil. É um processo muito, muito lento. Existe uma barreira muito grande que nos separa. Essa barreira é a timidez, o medo, a novidade de alguém cuja presença não é habitual. As crianças falam muito pouco connosco, daí, por vezes, termos a sensação de que não estão a captar nada, ou que não estão interessadas, ou que não percebem, ou, por outro lado, absorvem tudo com todo o afinco, até os nossos mais ínfimos gestos…realmente ainda não descobri o que vai dentro de cada criança!
O certo é que trabalhámos em redor desta época que se vive. Falámos de Jesus, do presépio, das figuras que o circundam, desenhámos, pintámos e até esculpimos presépios em barro. Construímos um presépio na igreja e expusemos todos os nossos trabalhos.
O trabalho com as mamãs foi um “partir pedra”, de onde saíram apenas umas lasquinhas. Apenas consegui reunir-me com elas uma vez. Depois, as mais velhas não falam português e as mais novas que o falam não conseguem traduzir para as mais velhas. As mais velhas ralhavam com as mais novas, por elas não traduzirem e estas riem-se. Eu ali no meio não percebia nada… enfim, dei o meu melhor. Tinha mais coisas preparadas, que não foi possível partilhar, mas as mulheres africanas não têm tanta disponibilidade. São elas que tratam da comida, de ir buscar água, cuidam das crianças, da roupa, da lavra, enfim, de tudo.
No dia 24 à tarde, realizámos um convívio, que constou do seguinte: teatro alusivo ao nascimento de Jesus, muito bem apresentado pelos catequistas; música com as crianças que cantaram e encantaram o público presente; momento de descontracção, com adivinhas, pequenas histórias e anedotas.
A nossa ceia, em família Ondjoyetu, e graças à Ana Bela, mãe da Vera, foi tipicamente portuguesa: desde o bacalhau, batatas cozidas com couves, azeitonas, tremoços, presunto, queijo, e até um bolo-rei estiveram presentes na nossa mesa.
A Missa do Galo foi o auge desta noite, dando vida ao momento litúrgico e mais importante desta época natalícia: o nascimento de Jesus.
O dia de Natal ainda foi passado com a comunidade, tendo nós regressado ao Sumbe no dia seguinte.
O Natal em Angola?
No mato, onde nós o vivemos, o que identifica esta época é mesmo a celebração do nascimento de Jesus. As famílias que têm algumas posses matam e comem um galo, para assinalar a festa. Não existe uma pontinha de Natal comercial.
Na cidade, já se vêem umas luzes e umas quantas árvores de Natal, mas o sentido é o mesmo, festeja-se em Eucaristia. Só os mais abastados é que se recheiam com ornamentos comerciais. Natal em simplicidade, vivido em genuinidade profunda!
Sempre juntos!
Tchauéééé!
Catarina Bagagem
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