>O Fandango Estremenho

>O Fandango Estremenho

>Recolhas de Alberto Gomes de Sousa Danças e Cantares…

Com o fim de ficarmos a saber algo mais sobre a origem da popular dança do “Fandango”, consultamos quatro fontes, cujos autores opinam a respeito:
1º. Dança popular espanhola.
2º. Dança popular, mais ou menos licenciosa; música dessa dança.
3º. Dança ou baile de ritmo popular, muito alegre e barulhento.
4º. Dança popular a três tempos, que é acompanhada normalmente de castanholas na Espanha, Portugal e no Brasil. Esta dança é executada por duas pessoas.
5º. Referente a um artigo que lemos algures, em que o autor dizia que o “Fandango” era uma dança de origem ibérica.
Ao cabo e ao resto, a terra onde nasceu o “Fandango” ainda está por apurar. Conquanto seja mais comum dizer-se que é oriunda do Ribatejo, naturalmente por ser ainda hoje onde está mais popularizado, o certo é que na última década do século XIX se dançava na região de Leiria, segundo testemunha fidedigna por nós contactada. Como era e é ainda dançado de maneira diferente, embora a música seja a mesma, não tem na região leiriense o nome de “Fandango Ribatejano”, mas antes de “Fandango Estremenho”. É que o “Fandango do Ribatejo” é dançado entre dois homens que mutuamente se desafiam, disputando entre si a mulher amada, tratando-se, portanto, de uma dança de sexos iguais, se assim se pode classificar.
Na nossa região, e mormente na Pocariça, esta dança popular era executada das seguintes maneiras:
a) Fandango Individual: sem formação coreográfica, homem ou mulher em passo clássico; homem ou mulher em passos improvisados.
b) Fandango Colectivo: sem formação coreográfica, homens em passo clássico e mulheres em passo clássico.
c) Fandango Quadrado: formação coreográfica em quadrado, homens em passo clássico e mulheres em passo clássico.
d) Fandango de Barra: sem formação coreográfica, campos extremados, homem em passo clássico e mulher em passo clássico, revezada por ajudantas.
Sendo o “Fandango Estremenho” ‘bailhado’ de diferentes maneiras, há que as explicar. Executada apenas por um fandangueiro – homem ou mulher –, quer em passo clássico, quer nos passos improvisados, os dançadores ficavam absolutamente livres para dar à dança uma personalidade que as outras formas não têm nem de longe. No passo clássico, deslocavam-se da esquerda para a direita e vice-versa, com uma agilidade impressionante, sem fugir ao ritmo acelerado da música. E nos passos improvisados? Era sem dúvida a forma mais aplaudida pela assistência. Sobretudo os rapazes faziam gala em inventar as mais incríveis poses. Como dançar em cima de um meio-alqueire, saltá-lo a pés juntos de um lado para o outro, marcar a cadência com um pé sobre a medida e outro no chão, dançá-lo com um copo cheio de vinho na mão sem “galão de alferes” sem o entornar, bater as palmas, ajoelhar, etc. Claro que todos estes passos eram levados a efeito numa posição máscula, como colocar os dedos polegares nas axilas, colocá-los também nos bolsos dianteiros das calças, tamborilando com os restantes nos flancos do abdómen, passar a borda do barrete da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, voltá-la para o cachaço, posicioná-la de molde a bater-lhe na testa, etc. Quanto às raparigas, nesta modalidade, conquanto fossem também muito aplaudidas, o seu sexo mão permitia a singularidade dos movimentos dos moços. Não passava, ao que nos contaram, de dançar com uma garrafa de vinho cheia à cabeça, sem a deixar cair, prática esta no que eram peritas, habituadas como estavam de trazer da fonte o cântaro à cabeça, sobre minúsculas rodilhas “feitiças”, num prodígio de equilíbrio, exibindo deste modo a sua perícia. O cântaro chegava a ter, na cabeça de certas raparigas, um grau de inclinação bastante acentuado, mas quando Deus queria…
Fazemos notar aos nossos leitores que só no “Fandango Individual” se usavam os passos improvisados. O “Fandango Colectivo” começava apenas com um par que, em passo clássico, dava o “risco”, ou seja, o princípio da dança. O dar o “risco” não significava propriamente um desafio, já que não havia contacto prévio. Mas o ritmo desta música sempre foi altamente comunicativo, logo outros ‘bailhadores’, rapazes e raparigas, entravam na contra-dança, chegando os pares a serem às dezenas. Com o aquecer, os fandangueiros chegavam mesmo a defrontarem-se uns aos outros, para ver aquele ou aquela que mais tempo se aguentava com a braveza da disputa.
Não se julgue que nestas circunstâncias era só a juventude que predominava no ‘bailharico’. Antes pelo contrário, os casais já durões nele tomavam parte, para fazerem ver aos mais novos como é que, no seu tempo, se dançava um “Fandango” bem bravo. Esta mistura de idades levava a que, mantido o devido respeito da malta nova para com os mais velhos, tudo acabasse em são, quão alegre, divertimento, sobretudo quando era um ou outro rapaz a desafiar o próprio pai, que, já se vê, não levava a melhor a moço de sangue na guelra.
O “Fandango Quadrado” é assim chamado por se tratar de uma formação em quadrado de pares mistos. Das quatro formas de executar esta dança, é a única que conhecemos com formação coreográfica. Aliás, conhecida também por “Fandango Batido”, porque todos os lados do quadrado o batem, “Fandango Chegado”, porque os lados do quadrado alternadamente se chegam, “Fandango Passado”, porque os dançadores passam de uma extremidade para a outra, “Fandango Rodado”, porque os quatro lados do quadrado se reúnem em estrela, andando de roda. Uma bonita forma de executar esta dança, que sendo de acentuado movimento de pés, tem imensa graça, quando os ‘bailhadores’, sobretudo os rapazes, acompanham na perfeição o ritmo da música com o bater dos pés. Para tanto, muito contribui para o êxito quando a actuação é levada a “tabuados” com boa caixa-de-ar.
Para mais acicatar os fandangueiros, havia um “mandador”, que a espaços gritava: “É rapazes, vai de bater o pé como o coelho”. Note-se que, assim procedendo, os moços estavam a manifestar o seu machismo, senão mesmo sensualismo, dado que o coelho só bate o pé quando anda com o cio atrás das coelhas.
Lemos em tempos, no comentário dum etnocoreógrafo, que o “Fandango de Barra” era das danças mais expressivas, dada a sua romântica história, que contaremos na próxima edição.

Partilhar/enviar/imprimir esta notícia:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.