>Adriano Moreira falou da “insegurança mundial”

>Adriano Moreira falou da “insegurança mundial”

>“Valores têm de ser o eixo da roda”
“Não é para entrarmos em pânico, mas devemos tomar consciência da insegurança em que estão as sociedades actuais e a nossa vida pessoal, e agir em conformidade, segundo o lema de ‘saber tudo, compreender tudo, melhorar um bocadinho’”. Assim concluiu Adriano Moreira a sua conferência, na Batalha, no passado dia 10, sobre o tema da “insegurança mundial”.
Cerca de duas centenas de pessoas marcaram presença nesta iniciativa, promovida pela Cáritas de Leiria, Comissão Diocesana Justiça e Paz, Câmara da Batalha e Rádio Batalha, no âmbito da operação “Milhões de Estrelas – um gesto pela paz”, que terminou em festa, no dia 15 (ver pags. 4 e 5). A presidir à sessão esteve o Bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto.

Leitura histórica
Numa verdadeira “lição de sapiência”, este conceituado professor – político, jurista e homem da cultura – apresentou a sua visão da realidade actual, partindo de uma leitura dos momentos-chave da história portuguesa e mundial, sobretudo do último século, para uma compreensão da verdadeira natureza da incerteza em que se movem os Estados e as pessoas nos nossos dias. E quanto a perspectivas de futuro, apenas o conselho que afirma deixar também aos seus alunos: “Imaginem pelo menos três cenários alternativos e esperem que aconteça algo diferente… ou então, perspectivem apenas a muito longo prazo, para que não haja testemunhas”.
Considerando que “vivemos uma realidade virtual, construída primariamente pelos meios de comunicação social”, Adriano Moreira lembrou a dificuldade de adequação às novas realidades sociais, que se renovam constantemente e obrigam a permanentes ajustes, já não fundadas nas “certezas históricas em que fomos educados”, mas ao sabor das “inovações da ciência e da técnica, que poucos controlam e cujos efeitos colaterais afectam a muitos”. Deu como exemplo as novas fronteiras dos Estados, não já “as fronteiras sagradas que se defendiam com o sangue dos patriotas e que agora não passam de apontamentos administrativos”, mas novos limites ditados pela economia, pelos pactos militares e por movimentos desregulados de migração”. A mesma instabilidade das sociedades civis transfere-se para o “projecto de vida das pessoas e para as estruturas familiares, laborais e outras”, bem como para o nível das relações internacionais. E daí o perigo para a paz.
Num discurso claro e vivo, o professor lembrou que “vivemos as guerras mundiais, que foram autênticas guerras civis da cristandade, da Europa a combater os seus próprios demónios internos; vivemos cinquenta anos de medo recíproco, sob a ameaça da destruição total da humanidade, numa tentativa falhada de organização da paz pelas Nações Unidas, que mais não era do que a dependência de quem detinha a domesticação da energia atómica; vivemos na ilusão de que a queda do muro de Berlim significava o fim da história, com a vitória definitiva da democracia e capitalismo ocidentais; e vemos agora que as novas fronteiras são as da geografia da fome, numa ordem mundial que não está em nenhum tratado, e que coloca frente a frente os ricos detentores da ciência e da técnica e os pobres que recebem apenas pingos desse poder e que usam sob a forma de terrorismo”.

Busca do caminho
Perante esta realidade, que solução? Voltamos ao diálogo com o inimigo armado ou destruímos todos os que são uma ameaça? Trata-se de um mero conflito de culturas ou de religiões? “O principal problema reside na dúvida do mundo sobre a escala de valores a adoptar, perante o confronto das diferentes áreas culturais que, após os processos de descolonização, pela primeira vez na história, começaram a falar com voz própria, apresentando as suas próprias convicções e leituras da realidade, mesmo a nível religioso”. A este propósito, usando a imagem da roda, Adriano Moreira referiu que “a realidade é como a roda, que está sempre em andamento e mudança, e cujo eixo são os valores, que acompanham a roda mas não andam”. A única solução será, então, encontrar uma escala de valores universais que permitam o diálogo intercultural e inter-religioso, potenciando movimentos como o ecumenismo e o respeito pelas diferenças, “pois, sem valores, o poder da palavra não é suficiente nem eficaz”.
Esta foi a ‘deixa’ do conferencista, apontando para o papel de cada um de nós nessa construção da paz. “Não é para entrarmos em pânico”, pois a esperança deve ser “a última a morrer”, mas antes uma chamada de atenção para o facto de cada um, perante esta realidade, poder “melhorar um bocadinho”. Como exemplo final, o professor lembrou alguns “santos na política”, que fizeram a diferença ao apostar no valor da verdade, como foi o caso de Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, bem como o papel fundamental de João Paulo II no contexto do encontro de religiões.
LMF

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