>Chegaram as férias: Sentido cristão do descanso

>Tempo de libertação do trabalho que, para além do necessário descanso, permite a dedicação a actividades que contribuem para uma maior realização pessoal: diversão, desporto, cultura, voluntariado, etc. A sociedade moderna tende a aumentar o tempo de lazer: dias feriados, fins-de-semana, férias, reforma, etc. Do ponto de vista da moralidade, é decisiva a maneira como se preenchem os tempos livres ou de lazer: de forma útil e enriquecedora para o próprio e para os outros, ou de forma inútil e até prejudicial, física e espiritualmente. Para o cristão, boa parte do tempo de lazer deve ser preenchido com actividades de índole religiosa e sócio-caritativa, nomeadamente aos domingos e dias santificados, que são mais que simples dias de descanso, para serem consagrados ao culto de Deus, ao crescimento espiritual próprio e à prática do bem em favor dos irmãos.
“Tempos livres e da libertação do tempo” é o documento apresentado em Abril pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC). Acerca dele o padre Tolentino Mendonça, director daquele secretariado, adianta que se trata de uma reflexão actual sobre um problema actual. “Hoje as sociedades contemporâneas são um espelho de coisas mais profundas”, pelo que a forma como se vivem os tempos livres, as expectativas, às vezes os conflitos e as dificuldades, são sintoma da maneira como o tempo livre e o lazer é vivido. Factos que este sacerdote afirma precisarem de uma reflexão de carácter antropológico, espiritual e cultural, que “ajude neste tempo a encontrar a via da sabedoria humana e que devolva a possibilidade da plenitude como pessoa”.
Muitas vezes, o período de férias transforma-se em momentos de grande tensão, conflitos, desentendimentos e tudo o que se consegue é ficar mais cansado do que quando começou. Isso porque a sociedade cada vez mais associa lazer com consumo, esquecendo-se do valor dos espaços de partilha, de gratuidade, da entrega alegre e prazenteira junto aos familiares e amigos.
É esta a visão cristã do descanso e do lazer que aqui reflectimos, a partir da entrevista feita ao padre Hermilo Pretto, membro da Congregação dos Missionários de São Carlos (Scalabrinianos) e professor de Teologia no Brasil.

Faz algum sentido falar em espiritualidade do lazer?
Não só faz sentido, como é um elemento essencial da fé cristã. Isso soa estranho porque o nosso tempo está profundamente marcado pelo espírito produtivo. Tende-se a imaginar que uma pessoa vale mais ou menos, a partir daquilo que ela é capaz de produzir. Com isso, quem tem menor capacidade produtiva acaba sofrendo cruel exclusão. A espiritualidade do lazer é remédio eficaz contra este mal.

Mas o que o lazer tem a ver com a fé cristã?
Jesus definiu o amor, e não o trabalho, como seu mandamento. Ora, na experiência amorosa, o ser humano é receptivo e não produtivo. O lazer constitui momento de valor, no qual o ser humano, passando para um segundo plano o trabalho, que responde a um princípio de utilidade, se entrega a uma experiência de gratuidade. Com isso quero dizer que o ser humano atinge o seu ponto de maior elevação, não quando produz com eficiência, mas quando usufrui e partilha no interior da experiência densa e consistente, que é a dádiva. E o lazer seria exactamente isso: atitude gratificante, longe do princípio de utilidade.

Como situar os momentos de lazer, de descanso, diante da ideia corrente que associa esses momentos com consumo e descompromisso?
Parece-me necessário, primeiramente, distinguir lazer e descanso. O descanso responde a uma necessidade biológica: recompor as energias perdidas. É algo que se faz de forma circunstancial. O lazer é algo permanente, porque assegura o espírito de gratuidade, que é essencial para a dignidade humana. Ora, a fé cristã propõe a vida em plenitude como grande objectivo a ser atingido, de acordo com a indicação de Jesus. Em face de uma sociedade consumista, a espiritualidade do lazer constitui dinamismo no sentido de ajudar as pessoas a compreenderem que a realização humana não depende da qualidade dos produtos consumidos, ou do próprio consumo, mas do espaço ocupado pelas relações de gratuidade: amor, amizade, disponibilidade para o serviço, capacidade de dar a vida. A conclusão é simples: o lazer nada tem a ver com descompromisso e irresponsabilidade.

As comunidades cristãs não estarão a descuidar esses momentos de maior distensão, de simples convivência fraterna, de apenas estar juntos, desfrutando a gratuidade e a alegria da presença do outro?
Estou pessoalmente convencido de que o mal do espírito utilitarista tenha contaminado as comunidades cristãs. A maior tentação que hoje elas enfrentam é a de se transformarem em empresas, que têm na eficiência e no lucro os seus mecanismos de força. Algumas delas são verdadeiras máquinas pastorais: apresentam resultados vistosos, mas no seu interior falta espaço para a compaixão e a solidariedade. É preciso lembrar que a empresa não é uma obra de misericórdia. Ela é capaz de cruel exclusão, quando os resultados se revelarem inferiores à expectativa. Ela tenderá a contar sempre com os mais capazes. O Evangelho caminha em direcção oposta: nele, a prioridade é para os pequenos e últimos. Assim, os últimos da sociedade devem ser os primeiros da Igreja. Uma comunidade pastoral incapaz de perder tempo, porque envenenada pelo utilitarismo, perdeu a sua inspiração maior.

Como criar momentos de lazer, quando as finanças não permitem sair em viagens, gozar férias, consumir com qualidade?
Há um terrível equívoco: imaginar que o lazer esteja ligado ao poder aquisitivo. Antes de ser uma actividade gratuita, o lazer é um estado de espírito, que ajuda as pessoas a descobrirem e vivenciarem a alegria de relações verdadeiras, dentro e fora do núcleo familiar. Reservar espaço para encontros significativos, longe de qualquer espírito de utilidade: eis aí o cerne do lazer. Quem não alimenta este espírito tenderá a confundir lazer com consumo. Esta é uma das mais graves enfermidades de nosso tempo. Em face de tal situação, cabe perguntar: pode um cristão duvidar da importância da espiritualidade do lazer? Da resposta dependem a qualidade da acção pastoral e o sentido mesmo do ser-Igreja: comunidade dos que estão no seguimento do Senhor, ou empresa de evangelização?

In O Mensageiro

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