>Memórias – Prova de Aproveitamento

>Memórias – Prova de Aproveitamento

>Chegou o mês de Dezembro e chegou também o fim do primeiro período de aulas. É tempo de testar a nossa aprendizagem, pois vem aí a nossa primeira prova – a prova de aproveitamento.
Na véspera da prova, a professora chamava a atenção para a responsabilidade da mesma e referia mais uma vez a importância da nossa pontualidade. No próprio dia, todos os alunos iam comprar a folha de 35 linhas no senhor Manuel Patrício, que levávamos até à sala de aula com o maior dos cuidados, para não sujar ou amarrotar.
Depois, já dentro da sala de aula, dirigíamo-nos, um de cada vez, à senhora professora, que fazia aquela dobra lateral tão perfeita. De seguida, depois de estarem todos sentados com a respectiva caneta de pau na mão, era altura de olharmos para o quadro onde a professora escrevia tudo o que deveríamos copiar para a primeira página da prova e, seguidamente, os restantes exercícios compostos por uma cópia, um ditado e uns exercícios de matemática.
Para utilizarmos a caneta, era preciso molharmos o aparo da mesma no tinteiro que estava colocado na nossa carteira, que, por sua vez, já tinha uma cavidade própria para ele. Claro que nos esforçávamos para que aquela prova ficasse impecavelmente limpa, mas todo o cuidado era pouco. Às vezes, lá caía um pingo de tinta… era uma chatice que tentávamos solucionar com o mata-borrão.
No dia da compra da prova, por vezes, chovia e a esta ficava molhada com alguns pingos. Quando escrevíamos na prova e o papel ainda estava húmido, as letras começavam a inchar e ganhar a configuração de espinhos – era a tinta a espalhar-se, para nossa aflição e tristeza.
Passados alguns dias, levávamos a prova corrigida para o encarregado de educação assinar. No meu caso, era o meu pai que a assinava.
Às vezes, gostava de brincar e chegava a casa fingindo estar triste e dizia à minha mãe que tinha tirado um “mau” na prova. Ela olhava-me desconfiada e dizia: “olha, filha, paciência!”. Depois, toda contente, mostrava-lhe que afinal tinha tirado boa nota. Embora ela não soubesse ler, percebia que o que estava riscado a vermelho estava mal e o que tivesse o sinal de certo estava bem.
Na altura de o meu pai assinar a prova, ele lia-a cuidadosamente e, se algo estivesse mal, nunca nos ralhava, embora fizesse sempre um reparo: “ó palerma, erraste isto?”. Depois, lá fazia a sua bonita assinatura.
Até breve!
Filomena Monteiro

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