179 – Poesia

179 – Poesia

Às vezes

Às vezes galgo paisagens
à procura do teu rosto
perdido algures no vento
perdido no meu desgosto

e vejo-te em mil miragens
que descubro entre as flores
perdidas umas nas outras
perdidas noutros amores

Às vezes sonho contigo…
com olhos da cor do mundo
de tons que não têm nome
ou de um castanho profundo

e desejo percorrer-te
como ave de asas abertas
solto do chão que me oprime
em voos de descobertas

Às vezes és o perfume
que me alimenta as manhãs
e repouso em ti o olhar
exausto em promessas vãs…

e imagino colher-te
como um menino risonho
que acaricia uma flor…
mas és apenas um sonho!

Luís Miguel Ferraz

Nunca eu

Não fui.

Não vi.
Não sei de nada…
Que mania!…
Pensam sempre que há razões para tudo.
Hoje em dia há razão para tudo!
Até para não se ter razão
Acha-se que há razão!
Ninguém tem razão…
Todos podemos ter uma mesma convicção…
Mas razão? Isso não!
Miguel Portela in “Quem Sabe?!…”

Era óptimo saber voar

Comecei sem pensar!
Abri as asas e comecei a voar
Via o mar e o céu

A muita gente era de admirar.

O azul que o céu brilhava
O sol fazia imenso clarão
Quando eu voava, tremia
Com o bater do coração.

Tal o meu invento
Chamaram-me voadora
Numa data oportuna
Já passava a ser aviadora.

Ia ao louvor do tempo
Como o vento faz bailar
Ia voando sem destino
Até poder aguentar.

Quando pensei aterrar
A tarde estava a chegar
Quando abri os olhos
Estava eu a sonhar.
Cremilde Monteiro

As flores do meu jardim

A primeira flor
Que no meu jardim nasceu
Era uma linda rosa
Mas como nasceu, morreu…
A segunda flor que nasceu
Eu já nem digo nada!
Foi semeada na Golpilheira,
Mas foi nascer à Serrada!
A terceira flor então
Aconteceu desta maneira:
Foi semeada na Serrada,
Mas veio nascer à Golpilheira!
A quarta flor
Que aqui nasceu entre nós,
Veio o vento e levou-a,

Foi parar a Porto de Mós!

A quinta flor então
Nasceu devagarinho,
Ela gosta tanto de mim
Que me ofereceu este livrinho.

A sexta flor,
Linda como um cartaxo,
Quando caiu do muro
Deus pôs-lhe a mão por baixo!

A sétima flor
Foi a última do meu jardim,
Que Deus lhe dê muita saúde
Para continuar ao pé de mim!

Ora o meu primeiro rebento
A duas flores deu vida,
Uma foi o João Francisco
A outra a Ana Margarida!

O segundo rebento,
– Ó que jardim tão belo! –
Que me deu uma Maria,
E um João Marcelo!

Neste jardim
Semeado a granel,
Houve ainda um João Pedro
E um Rui Miguel!

A quarta flor,
Flor do meu agrado,
Deu-me uma linda Filipa
E um lindo Eduardo!

E a flor mais pequena
Linda como um botão
Deu-me dois lindos cravos,
O Filipe e o José João!

A última flor do meu jardim
Linda que é um regalo,
Deu-me dois lindos cravos
Um Rodrigo, outro Gonçalo!

Neste livro pequenino,
Vou escrever os meus afectos
Deus me deu seis filhos,
E já tenho doze netos!

É o que mais adoro na vida
São os meus filhos e os meus netos,
Deus me dê mais uns dias aqui
Para ainda ver os meus bisnetos!

Neste jardim de flores
Semeadas pela minha mão
Não, não as semeei sozinha:
Fui eu e o meu João!

No mês em que me casei
Era o mês de S. João,
Eu nem parecia uma noiva
Mas sim uma menina na comunhão!

O semeador do meu jardim,
Foi um homem muito sério,
Foi ele quem mandou abrir

A estrada que passa ao cemitério.
A estrada e a luz
Foi ele que mandou pôr
Agora só espera pela paga
De Deus Nosso Senhor.
Maria Nunes

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