Aves da Batalha: Cidadãos-cientistas registam 1500 espécies na Batalha

Aves da Batalha: Cidadãos-cientistas registam 1500 espécies na Batalha

Ao longo dos quase quatro anos de existência, o Aves da Batalha tem centrado muita da sua acção na ciência-cidadã – resumidamente, consiste no contributo dos cidadãos para a evolução da ciência.
Iniciado em finais de 2019, o “Biodiversidade da Batalha” é um projecto que visa inventariar a biodiversidade do concelho, podendo qualquer cidadão ajudar de forma activa. De forma simples e intuitiva, o “Biodiversity4all” é a plataforma onde qualquer naturalista pode adicionar um registo, podendo em troca obter a identificação da espécie em causa e outras informações sobre a mesma (biologia, distribuição, etc.).
Ao fim de quase dois anos, o fantástico contributo dos cidadãos permitiu que o projecto alcançasse mais de 6.000 registos, de mais de 1.500 espécies diferentes. O número de pessoas que contribuíram ultrapassa já a meia centena. É um número fantástico, tendo em conta que apenas passaram cerca de dois anos. E este número estará muito abaixo da realidade, uma vez que ainda existem muitas espécies que estão por registar.
No sentido de perceber o que motiva os cidadãos a participar, o grupo decidiu colocar três questões a cinco cidadãos, que aparecem aqui em representação do grande grupo de naturalistas que ajudou nesta escalada até às 1.500 espécies:
1 – Quais as motivações para teres participado e para continuares neste projecto?
2 – O que mais te surpreendeu nesta experiência?
3 – A iniciativa alterou a tua relação com o meio ambiente?

Tânia Jordão (Reguengo do Fetal)

1 – Tomei conhecimento da plataforma pelo grupo “Aves da Batalha”, que lançou à comunidade o desafio de efectuar registos de observações no concelho, o que me motivou a criar conta e iniciar. Cada observação registada aumenta a vontade de continuar, de ampliar a “colecção” de elementos que constituem a biodiversidade da Batalha.
2 – Surpreendeu-me o quanto desconhecia (e ainda desconheço) da flora e fauna local, que são vastíssimas, pois apesar de vivermos imersos nesta riqueza não a reconhecemos. Cada registo é uma oportunidade de saber um pouco mais.
3 – Cresci com a certeza de que não podemos ser saudáveis e felizes num planeta “doente”, sempre estive desperta para as causas ambientais e empenhada na defesa do mesmo. Ainda assim, esta iniciativa mudou o meu olhar sobre os elementos da natureza que me rodeiam, passei a estar muito mais atenta e a reconhecer o que anteriormente olhava, mas não via de verdade.

Daniel Franco (Alcanadas)

1 – As motivações estão à vista: a poluição e destruição do rio Lena e afluentes, a destruição das espécies e habitats em todo o concelho. E temos de conhecer para depois proteger.
2 – O que mais me surpreende é o facto de, apesar de existir bastante impacto humano no concelho, ainda haver espécies raras que nos enchem de orgulho e são elas que temos de proteger. A vaca-ruiva é um exemplo.
3 – Quanto mais exploro, mais vou conhecendo a riqueza ambiental do concelho que até então desconhecia. Logo, constatei que, foto após foto, podemos ajudar a melhorar a nossa envolvência.

Carla Chavinha (Casal de Santa Joana)

1 – O motivo inicial foi o incentivo das pessoas do grupo. Tenciono continuar a participar, porque para mim faz todo o sentido registar a natureza existente na nossa terra, que é muitas vezes surpreendente!
2 – A quantidade e variedade de aves de rapina existente no concelho foi para mim a maior surpresa! Os mochos-galegos também me cativam imenso!
3 – Ao participar nesta experiência a minha contemplação para com natureza foi inevitavelmente crescendo, como é natural!

Pedro Ribeiro (Faniqueira)

1 – A maior motivação para ter participado, além do enorme entusiasmo que tenho pela descoberta e sede de conhecer a fundo tudo aquilo que existe em meu redor, foi o reconhecer do desconhecimento que por vezes temos sobre a riqueza natural que nos rodeia. É esse desconhecimento que nos leva a não valorizarmos essa riqueza natural que temos junto de nós. Assim, é cada vez mais imperativo catalogar para conhecer e, assim, poder preservar. Pretendo continuar com esta tarefa de registar e dar a conhecer a enorme riqueza natural do nosso concelho.
2 – O que mais me surpreendeu, logo nas primeiras incursões, sendo eu um entusiasta do estudo da etnobotânica, foi a quantidade de espécies de interesse etnobotânico que encontrei, desde as medicinais como o Lúpulo (Humulus lupulus), a plantas com aplicações práticas, como a Erva-Saboeira (Saponaria officinalis), bem como a enorme biodiversidade animal que se pode ainda encontrar no Vale de Lena.
3 – Posso dizer que esta experiência veio reafirmar em mim a convicção da imperativa necessidade de se preservar e dar a conhecer a imensa riqueza natural do nosso concelho, pois nós, humanos, temos a terrível tendência de não acarinharmos aquilo que não conhecemos. Este comportamento, como podemos constatar nos dias que correm, traz as mais terríveis consequências, não só em termos civilizacionais e humanos, mas também para todas as outras criaturas que habitam esta “estranha rocha que flutua no espaço”, à qual chamamos Terra, a única Casa que temos e que sempre teremos.

Jorge Gonçalves (Tomar)

1 – Inicialmente, apenas registava e fotografava o que observava, mas, após uma actividade organizada pelo Grupo Aves da Batalha, fui fortemente incentivado pelo dinamizador a começar a publicar as minhas observações e fotos na plataforma “iNaturalist”. Não sendo residente no concelho, mas visitante regular, a associação e envolvimento no projecto “Biodiversidade da Batalha” acabou por acontecer naturalmente. Sempre que for possível, continuarei a registar as minhas observações, pelo retorno que me trazem e se, por pequenas que sejam, contribuírem para um conhecimento global ou local do meio que nos rodeia, então melhor motivação não poderia ter.
2 – Desde a descoberta dos monumentais carvalhos até à grande variedade de borboletas diurnas, são várias as experiências que retive. Mas houve uma muito especial: numa manhã, quando caminhava por um trilho numa encosta no Reguengo do Fetal, fui agradavelmente surpreendido pela passagem de dois corvos (Corvus corax) a poucos metros de distância. Sendo as aves que mais me fascinam, pelas capacidades, aspecto sóbrio e provavelmente também pelo misticismo que as rodeia, vê-los a voar tão perto, a vocalizar e em plena liberdade foi o momento mais marcante que tive no concelho da Batalha e uma das razões para ter lá voltado muito mais vezes.
3 – O maior conhecimento e entendimento das espécies que vou observando, dos seus ciclos, estágios, habitats, da sua relação com outas espécies e do equilíbrio necessário para a sua manutenção leva-me a repensar e adaptar comportamentos, com o fim de provocar a menor interferência possível nesse equilíbrio. Essa adaptação de comportamentos passa pelas actividades de lazer ou menor importância (moderação de deslocamentos, manutenção da propriedade ou do jardim, gestão do ruído ou iluminação…) até à actividade profissional (melhor planificação de trabalhos).

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