A solidariedade “a sério”

A solidariedade “a sério”

As famílias ucranianas, sobretudo mulheres e crianças, estão a fugir da guerra e a sair da sua terra aos milhares, procurando refúgio pelas cidades, vilas e aldeias de toda a Europa. Mostramos mais uma das que ontem (dia 11 de Março) chegaram à Batalha, das cidades de Kiev e Kharkiv, já com acolhimento assegurado por familiares residentes em Leiria.

Família ucraniana chegada à Batalha a 11 de Março, com uma familiar que a acolheu

O cenário repete-se. Vêm cansados da viagem e, sobretudo, abatidos e amargurados pelas circunstâncias que os obrigaram a partir. Viram a vida em perigo, fugiram por entre sons e imagens de guerra e destruição, deixaram tudo o que tinham e, muitas vezes, alguns familiares e amigos que ficaram a tentar defender os seus bens e a liberdade da sua pátria. Ainda assim, sair da carrinha nesta terra desconhecida e encontrar rostos conhecidos ou, pelo menos, acolhedores, simpáticos e com um sorriso e uma refeição quente à sua espera já ajuda a restaurar um pouco da alegria perdida.

Mais uma vez, dissemos o motivo da nossa presença: para mostrar à população local que a onda de solidariedade está a ter resultados e tem rostos concretos, pessoas que se tornam, agora, mais próximas de nós. Juntaram a família para a fotografia, para dizerem: “aqui estamos, agradecidos e felizes por tudo o que estão a fazer por nós”.

O objectivo é apenas esse. Não faremos muito mais destas fotografias, talvez apenas quando chegarem à Batalha, previsivelmente no domingo ou segunda-feira, as várias dezenas que vêm a caminho na grande caravana que saiu na passada terça-feira. Não se pretende a exploração de um sentimentalismo fútil, seja de pena pelos “coitadinhos”, seja de exibição de uma espécie de “troféus” da nossa boa acção. Antes pelo contrário, este primeiro contacto com a realidade deverá servir para percebermos o muito que ainda está por fazer e que os desafios da verdadeira solidariedade ainda estão agora a começar.

Solidariedade permanente

Quando surgem apelos de solidariedade, os primeiros momentos são os de resposta mais significativa, numerosa e visível. É fácil encher um saco com roupa que já não se usa, ou mesmo comprar alguns bens para partilhar, tal como oferecer umas horas de trabalho voluntário durante meia dúzia de dias. Mas aos poucos essa onda de entusiasmo esmorece e muitos dão a tarefa por concluída. E é aí que se torna necessária a verdadeira solidariedade, a que se preocupa em garantir condições para que as pessoas possam subsistir por si próprias.

O centro de recolha da Batalha está a transferir-se do salão paroquial para uma loja junto à igreja matriz. Continua muita gente envolvida neste serviço. Ainda ontem, uma jovem golpilheirense chegava com toda a disponibilidade para arregaçar as mangas e reforçar esse apoio de continuidade. O trabalho concentra-se, agora, na recolha de alimentos, medicamentos e produtos de higiene, a serem distribuídos para resposta às necessidades mais imediatas destas pessoas.

Depois, há que pensar na habitação, nas possibilidades de trabalho, na integração escolar das crianças, na ajuda a ultrapassar a barreira da língua. Nem todos têm familiares cá e alguns desses vivem também com dificuldades. “Acabo de perder o emprego”, comentava uma residente acolhedora, cuja empresa já sentiu os efeitos do fecho das exportações para Leste e teve de dispensar algumas dezenas de funcionários com contratos a prazo.

As autarquias estão a coordenar algum desse esforço com as escolas, IPSS, empresas e particulares que manifestam disponibilidade em ajudar. Há uma plataforma regional onde podem ser registadas as ofertas de alojamento (ver aqui a notícia). E há muito a fazer, sobretudo através das instituições sociais que irão fazer o acompanhamento regular desses situações, ou através de associações locais com o mesmo objectivo, como é o caso da “Batimento Veloz – Associação Apoio ao Emigrante”, que foi constituída na Batalha em consequência da operação aqui montada. Os interessados em contribuir com dinheiro para este fim, poderão usar esse meio (IBAN PT50 0045 5080 4035 3238 1039 4).

O desafio das próximas semanas será o de se manter essa solidariedade “a sério”, que ajude verdadeiramente os que chegam a sentirem-se em casa. Pelo menos, até que tenham condições para regressar à sua verdadeira casa, caso seja esse o seu desejo.

LMF

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